16.3.08
A OSTRA E AS PÉROLAS
Não vou mais escrever por aqui. Estou com meu saco ligeiramente cheio, e ando numa preguiça mental de fazer horror a qualquer ser humano.
Não, vou me retratar. Não é preguiça mental. Acho que um blog precisa ter um tema e um objetivo. O objetivo deste era, em algum momento do passado, dar vazão às coisas que eu falava. E olha, era muitíssima coisa. Hoje não é mais tanta coisa - minha mente deu uma bela silenciada.
Hoje me tornei uma pessoa grande, aprendi a meditar, fiz as pazes com a minha mãe (ainda não com meu pai), fiz terapia, aprendi a ir ao salão de beleza no mínimo a cada 15 dias e sim, uso estampa de onça. Pinto a unha de vermelho. Uso rímel. Sou uma peruona. Deixei certas babaquices de lado e passei a fazer aquilo que me fazia bem, sem levar em consideração as convenções que não entendia muito bem.
Não, não estou deprimida, mesmo que pareça. Estou feliz. Muito feliz. Ando fazendo planos bonitos para a vida, ando tornando minha própria vida mais legal. Deprimida, não senhor. Talvez eu esteja um pouco anêmica.
Nesse meio tempo, cortei o cabelo e deixei virar um black, ainda não tenho um computador pra chamar de meu, mas estou providenciando, já recuperei minha carteira de motorista mas ainda não tenho carro, pretendo sair de casa, tenho trabalho de carteira assinada, ando maquiada, encontrei meu grande amor numa pessoa que andava perto e mais perto do que eu pensava.
Vou deixar o blog por aqui, caso dê uma fissurinha. Mas não pretendo mais escrever por aqui. Pode ser que eu volte logo, e aliás, tenho alguns projetos de blogs novos em mente, mas tem que ter um objetivo. Talvez eu volte pra escrever sobre comida, sobre livros, sobre sexo ou qualquer outra coisa de que eu goste mas, por ora, vou ficar curtindo essas idéias em barril de carvalho. Eu quero muito voltar a escrever; escrever desopila o fígado, mas eu preciso de um tema e de um objetivo, de um layout bonito, de coisas que me dêem tesão. Sim, meu guarda-roupa é organizado por cor, e por isso esse momento de TOC bloguística.
Por enquanto, é isso. Se a preguiça passar, eu volto. Se alguém quiser me convidar pra um projeto, convida que eu adouro. Tenho que ter algo que me dê tesão de escrever.
Hasta luego.
Em Brasília, 19 horas.
P.S.: Amanhã, 17 de março, é aniversário do meu grande amor. Comemoremos a vida de quem me fez florescer de novo. =)
por Vevila às 17:30
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21.2.08
NAKED IN THE CITY
A cidade.
A cidade brilha entre as nuvens de chumbo.
A cidade é branca como meu mais doce sonho, e cinzenta como os meus piores pesadelos.
A cidade.
A cidade me dói pontiaguda e transparente, e se abre para mim como uma mulher pronta.
Eu sou a mulher pronta, e estou abrindo a cidade pelo ventre, entrando por suas artérias, devassando seus asfaltos espelhados de chuva.
Essa cidade me surpreende como a tristeza. Estou acostumada a ela como à dor.
P.S.: "O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém."
A Vida Bate, de Ferreira Gullar.
por Vevila às 10:42
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18.2.08
A HISTÓRIA DO BLACK POWER
Quando eu decidi cortar o cabelo, eu não quis um mero corte. Eu quis um corte definitivamente diferente. Pensei em raspar. Máquina zero. Juro que pensei com carinho, e acho inclusive que eu teria ficado bonita daquele jeito, com cara de quem deitou pro santo. Mas acontece que eu gosto de ter cabelo. É um problema.
Nos Estados Unidos, década de 70, um negro usar black power era, a um só tempo, a maior afronta, o maior enfrentamento, a maior coragem e a maior beleza. Diz a lenda (talvez nem tão lenda assim), que a Zezé Motta foi visitar o Tio Sam e, quando viu negros e negras andando com o crespo natural crescendo pra cima, correu de volta pro hotel, enfiou a cabeça embaixo d'água e se sentiu a pessoa mais nua e mais livre que ela jamais conhecera. Foi mais ou menos essa a minha sensação quando apareci em público com um cabelo único.
Só que ninguém falou que ia ser moleza.
Quando eu cheguei em casa, me perguntaram que cabelo era aquele.
Quando a minha vó viu, perguntou se eu não queria fazer uma progressiva de açúcar.
Na rua, algumas vezes, eu ouvi aquelas piadinhas tipo "Vai pentear o cabelo!".
Inclusive, já me perguntaram se eu penteio o cabelo, até se eu lavo o cabelo.
Semana passada foi a coisa mais engraçada. Entraram no meu orkut com uma mensagem:
"O tempo chuvoso está chegando, e você vai continuar com esse cabelo?"
A mensagem terminava com promoções de escova progressiva e alisamento com Guanidina, e pelo telefone, o salão era do lado da minha casa. Vai dizer que a pessoa nunca me viu e nem sabe quem eu sou, né?
Fora isso? Tem sido uma diversão. Quando eu acordo com preguiça, eu prendo. Quando acordo numa boa, deixo solto. Quando acordo romântica, coloco uma florzinha. Quando acordo com a vó atrás do toco, meto um garfo nele seco, desfio tudo e saio com o maior black que você já viu na vida. Confesso que acho uma delícia quando me param pra elogiar, pra perguntar como foi, se dá trabalho, ou simplesmente pra dizer que é lindo. Na boa, é lindo mesmo.
O que me intriga em tudo isso é como as pessoas se incomodam com a aparência das outras. O meu cabelo black agride as pessoas. Gente que anda fora dos padrões ainda agride os outros por aí. Quem usa chapéu, homem que usa saia, mulher que usa gravata, quem usa moicano. Meu sonho ainda é ir parar em um país onde as pessoas levantam de manhã com o cabelo emaranhado e sujo, e saem à rua pra trabalhar desse jeito. Nesse país, eu certamente vou encontrar homens de dread e terno, e algumas outras mulheres de black power. Assim seja.
As pessoas comuns ainda não gostam e nem se acostumaram. Minha vó jamais vai se acostumar, quanto mais gostar. A grande questão está na estética, uma estética que decide aceitar o natural como belo sem interferências, e decide usar o belo a seu favor. Não imagino a vida de um ser humano que passa formol na cabeça, dorme com aquilo por três noites e, depois de 6 meses, repete a operação. Ou lava, passa um ferro quente na cabeça e fica sem lavar o bendito cabelo por uma semana, pra durar mais. E tem medo de chuva.
Cada um na sua, mas eu gosto de ter cabelo crespo. Já saí dessa síndrome há muito tempo. Não tenha medo de chuva. Não tenha vergonha do seu pixaim. Vai pentear o cabelo.
*Foto de Cristian Parente
por Vevila às 16:30
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