26.3.06
"SENHORAS E SENHORES, TRAGO BOAS NOVAS"
E foi. Apresentei bem, apesar de todo o nervosismo, tirei a nota que eu queria, fui feliz. Sequei, junto com a turma, uma garrafa de Germana. Wonderful. Fechei o bar.
Se no fundo eu sabia que tudo ia dar certo, no fundo eu tinha medo que não desse. Gente perfeccionista é um terror. Mas valeu, valeu e valeu a pena.
Agora é só farra, só quebradeira, só diversão. Um mês de férias, muito sono e bagunça. Semana que vem é a dos vestidos lindos, da comida gostosa, da choradeira sem fim.
E paixão. No cartão que minha mãe me deu depois da defesa, acompanhando o lindo anel de bacharel, ela escreveu:
Da pedra à filosofia, é a paixão que move o mundo.
Eu acredito. Esse mundo que foi meu tema central nos últimos anos, essa coisa apaixonada que eu enfrentei, só gira porque há paixão. Só foi até o fim porque havia paixão. E só vai continuar se houver paixão.
Eu tenho pena (e um certo preconceito) de quem escolhe uma carreira porque dá status, ou porque o pai mandou, ou porque tem um concurso público pra fazer e ganhar mais. Tenho pena. Tenho pena dessas pessoas que não gozam, tenho pena dessas pessoas que não sentem tesão no que fazem. Porque se, sem paixão não funciona, sem tesão não há solução. Sem escolha do coração, sem desejo de buscar, não funciona.
Nunca pensei em desistir, em mudar. Não vai ser mole, vai ter muito perrengue por aí - mas meu coração é novo. Eu não envelheci nem me enrijeci, porque escolhi com paixão e assim estou, até hoje: fazendo amor com a Terra e plantando sementes de futuro para ela, de dentro da Academia.
O mundo seria um lugar muito mais bonito se todo mundo vivesse com paixão. Se todo mundo tivesse escolhido sua carreira como eu escolhi a minha: com paixão. As pessoas seriam menos feias, o céu do mundo inteiro seria amplo como o de Brasília.
Hoje eu acordei com vontade de arranhar alguém. Feliz. Tão bem. Com um certo medo, mas... quem liga?
Digo e repito:
Da pedra à filosofia, é a paixão que move o mundo.
P.S.: Para a comandita de Brasília, a colação é terça-feira agora, às 20 horas, no Centro Comunitário Sutiã da Madonna, da UnB.
por Vevs em 13:18
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24.3.06
24 de Março
É hoje. Quando o meu primeiro filho nasce na Academia.
Aniversário do início da ditadura no Chile. A ditadura já acabou.
Aniversário do Dark Side of The Moon: 33 anos. Idade de Cristo.
Em 1948 foi lançada a teoria da cibernética.
Em 1984, o livro Neuromancer. E eu nasci, no mesmo ano.
Vai dar tudo certo. É cabalístico.
E apoteótico.
Me deseje sorte, e acenda uma vela pra Oxalá, por mim.
P.S.: Pra quem não entendeu nada, hoje é o da defesa da minha monografia.
por Vevs em 09:48
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22.3.06
"Cai a noite sobre a minha indecisão
Sobrevoa o inferno, minha timidez
Um telefonema bastaria, passaria limpo a vida inteira
Cai a noite sem explicação, sem fazer a ligação
Na hora da canção, em que eles dizem baby, eu não soube o que dizer
Ah, vida real...
Esperei chegar a hora certa por acreditar que ela viria
Deixei no ar a porta aberta
No final de cada dia
Cai a noite doce escuridão, de madura vai ao chão...
Na hora da canção em que eles dizem, baby...
Eu não soube o que dizer...
Na hora da canção em que eles dizem...baby
Eu não soube o que dizer...
Ah, vida real...
Ah, vida real...
Como é que eu troco de canal?...
Na hora da canção em que eles dizem, baby...
Eu não soube o que dizer...
Na hora da canção em que eles dizem, samba
Eu não soube o que dizer...
A vida real... a vida real...
Tchau!"
Sou só sensibilidade. Dando adeus a uma fase, fechando um ciclo, num total desequilíbrio antes do meu mundo voltar pro eixo. Ouvindo o soar do Division Bell. Meio deprê, muito ansiosa e angustiada.
Acho que estou virando mulherzinha. Mesmo, no sentido de quem abandona por completo a adolescência e mergulha numa maturidade que faz cobranças e oferece maravilhas que nunca imaginamos.
My skin is cold to the human touch.
Muito feliz com a formatura e as festas e toda essa batucada que vai rolar nos próximos dias.
Mas, ao mesmo tempo, com tantas interrogações na cabeça, querendo por tudo ter uma bola de cristal. Desejando, realmente, que aquela convicão que eu tinha aos 17 permaneça: não preciso provar nada pra ninguém. Preciso, precisas, todos precisamos.
Não queira estar dentro de mim pra saber o que é o aperto no peito que meu prolapso me proporciona neste momento...
The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river
Mas vai nascer. De nove meses. Eu já senti essa angústia antes, e deu tudo certo.
E vai ser bom quando eu estiver bonitona na roda de bamba, de novo.
por Vevs em 19:14
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13.3.06
ABRAÇANDO O MUNDO COM AS PERNAS
Ele do meu lado, e eu do lado dele era uma rainha. Homem lindo. Homem lindo e perfumado sempre foi tudo. Ele do meu lado era um rei sentado, melhor ainda, esparramado no seu trono. Era ele reinando sobre mim e sobre os pinheiros do Parque da Cidade. E ele era lindo demais com aqueles olhos azuis. Eu pensava, enquanto beijava os cílios dele: "Pra que tanto azul, meu deus? Pra que gastar tanto azul só em dois olhos?". E beijava os cílios dele. Pensava se valeria a pena me deixar envolver daquele jeito, porque ele era coisa demais, com os supercílios loiros roçando as cirrus mais espessas. As cirrus, e não as nimbus, porque as cirrus eram alvas e finas e suaves, como a pele dele, eu pensava. E beijava o lóbulo da orelha dele. E pensava, "Não, isso não pode, como é que eu vou carregar essa carga toda, eu não consigo, eu não aguento, eu não posso resistir. Isso tá errado...", e ele punha as mãos nos meus seios. Por um segundo aquilo era um nojo, "Como assim eu ia me permitir apaixonar, eu não ia", mas logo depois era tanta volúpia aquela imensa mão tão branca cobrindo a pele negra do meu peito. Eu naquele desespero quase mortal, com os pés resvalando, achava que conseguia fingir direitinho não estar nem aí, mas ele nem se movia e eu escalava o corpo dele em busca dos seus beijos. Eu fingia muito mal. E ele nem se movia. Como ia se mover, era uma deidade e eu estava de joelhos, quase querendo orar. Heresia, heresia. "Heresia, heresia", eu nem podia mexer os lábios, nem sequer balbuciar, e a barba dele era recém feita e me surpreendia às vezes com arranhões. "Heresia, heresia", e eu queria morrer igual Joana D'Arc, com aquela coisa linda crescendo junto de mim sem sequer se mover. Eu ofereci meu corpo à Inquisição, e negando a cada momento com o cérebro, fui incapaz de ordenar às minhas mãos que parassem, e elas não paravam, acho que sabiam que meu cérebro estava ocupado com julgamentos, e caminhavam independentes para a cintura dele. Botão, zíper. Heresia. As pedras rolavam e eu rolei, escorrendo como água em direção ao chão. Ah, era deidade sim, e eu nunca acreditei em deuses que não pudessem dançar. Como Nietzche. Ele dançava em chamas entre as minhas mãos e, como as gotas da chuva, era tão lindo que eu salivei. O machismo é a pura expressão da burrice que é não saber tratar uma mulher. Ele penteava meus cabelos suavemente, porque era um homem que sabia disso. Me permitiu ser uma mulher pelo bem de sua masculinidade, de sua própria deidade. Eu era toda lábios, era toda beijos, era toda sucção, e era toda mulher, por isso: porque ele merecia. Assim como se ora com os lábios. Eu olhava para o alto e via as nuvens brancas ao redor de sua testa; "não existe coisa no mundo mais bonita que um homem", eu não parava de pensar. Bonito, explosivo, apoteótico, era o recuo da bateria da Mangueira, era a Cachoeira da Fumaça, era o primeiro gole na primeira Brahma da semana, era minha boca cheia e salivando, era lindo, era sublime. Era divino. Era o mundo inteiro cabendo no espaço da minha boca. Aquele deus se tornou homem quando derreteu nos meus lábios. Derreteu devagar e sempre, e foi perdendo a divindade nesse instante. Ser mulher é um poder que eles não conhecem. Não sabem da lua que vive dentro de cada uma. São machos e deuses, mas mesmo quando caímos de joelhos por eles, somos capazes de destroná-los. Para ele e seus olhos azuis, acho que foi bom perder o trono. Ele quase foi parar no chão, de tanto que seu corpo se contraiu. Morreu por um instante e reencarnou, era um bebê no meu regaço. Beijei seus lábios de novo, tudo doce, tudo amargo, e pensei: "Não existe coisa no mundo mais bonita que um homem". Mas quem fez esse homem fui eu.
Post impessoal*, especialmente e atrasadamente escrito para o 19º Concurso dos Blogueiros Malditos.
P.S.: Ao som de I'm Your Man, Leonard Cohen.
*Acredite se puder.
por Vevs em 16:18
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9.3.06
DESPERATE ACADEMY AWARDS
Não adianta chazinho calmante, massagem relaxante, chocolate suíço. A formatura é um presente que só ganha quem conseguir sobreviver ao estresse da monografia.
Estava escrito na tumba de Heródoto que, quem conseguisse o privilégio de cursar Geografia numa universidade federal de renome, só conseguiria o canudo se sobrevivesse à maldição da monografia assassina.
Minha turma parece ser a turma do desespero absoluto. Cada colega que encontro exibe olheiras maiores que o anterior. Massagear as têmporas já virou tique-nervoso. Ter cabelo branco não é mais privilégio da vovó ou do vovô.
Uma das colegas disse que já esqueceu o que é depilação.
A outra que não teve espinhas nem aos 14 anos, está comprando todos os kits da Clean & Clear.
Um dos colegas foi internado com a Síndome do Pânico.
O outro passou a noite vomitando.
A outra esqueceu o nome do filho.
O outro garante que, se bater um prego em sua musculatura das costas, não vai doer nada.
Eu nunca mais vi a cor da piscina da academia. Aliás, pra mim, Academia é esse troço de universidade.
Quem não bebia, tá tomando banho de Pedra 90.
Quem não fumava, tá mastigando Camel com farinha.
Às vezes bate uma sensação insuportável de que a gente não vai conseguir. Que vai pagar mico na defesa, que pagou a colação em vão, que não vai ter chance de usar aquele Valentino* que comprou só pra festa.
A gente sabe que 50% das pessoas que entram não conseguem sair. Essa proporção deve aumentar nos últimos meses de
curso.
Eu consegui entregar a maldita ontem às 12:30. Quando deixei os mapinhas no escaninho do Orientador, suspirei num alívio sem precedentes. A dor de cabeça resultante da última semana com noites de 4 horas de duração ainda não passou; mas quando eu penso que valeu a pena, que o trabalho ficou bom e que posso me orgulhar, sorrio feliz. Igual mulher que acabou de dar a luz: quase morreu de tanta dor, tá num cansaço escroto, mas nada no mundo importa mais que a carinha do seu bebê.
Os últimos meses foram sofridos². Em janeiro em fiquei internada por um dia tomando na veia remédio contra a gastrite que estourou da noite pro dia. Em fevereiro engordei e emagreci e engordei, acordei um belo dia com a cara cheia de espinhas e, do nada, fui ao salão e meti a tesoura no cabelo. Em março, a primeira noite de sono completa que tive foi a de ontem. Chorei no escritório, na UnB, na igreja, na cama que é lugar quente. Briguei com amigos e há meses não sei o que é despir um homem.
Mas parece que acabou. Agora começa o processo de desaceleração, de relaxamento, de descanso, de reposição do sono perdido. Posso voltar à minha forma humana.
A defesa é dia 24. A colação, dia 28. A festa é dia 1º de Abril, com tira-gosto dia 31 de Março. E depois disso, sou geógrafa e problema social também.
Parabéns a quem consegue sobreviver. Boa sorte a quem vai começar.
Me sinto muito orgulhosa da carreira que escolhi, e no dia da colação vou estar muito emocionada.
É como diz Jorge Aragão: "Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou"...
* Uma mulher que tem a chance de usar um Valentino na formatura não deve estar nem aí pra monografia...
por Vevs em 13:27
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4.3.06
AINDA DA SEÇÃO "HOMENS QUE AMAMOS"
Este. Categoria "Chico Buarque, Marcelo Camelo e Adjacências". Quem te conhece não esquece jamais.
Ganhou, no Orkut, esta comunidade. Quase duzentas moças (e alguns rapazes) querendo ser recortadas e desconstruídas e regurgitofagadas por ele. E eu me pergunto: quem não daria?
P.S.: Faço esses posts sem esperar qualquer flood de comentários. Praticamente introspecções absolutas, que vêm à tona num momento muito íntimo, e depois do Recorte Cultural.
P.S.: Decididamente, "não existe coisa mais bonita neste mundo que um homem".
por Vevs em 00:11
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