28.4.06
"EU NÃO SEI O QUE MEU CORPO ABRIGA"
Vidros embaçados e Goo Goo Dolls no aparelho de som. Goo Goo Dolls é bom, mas convenhamos, paixão é Pink Floyd. A tristeza que as músicas do Floyd transmitem é tão translúcida, tão fina, tão pura e tão cortante quanto o fio de uma faca. Nenhum apaixonado deveria ouvir outra coisa. Pink Floyd: paixão por excelência.
A paixão nos deixa idiotas. Não há nada no mundo que nos faça ficar mais burros. Falamos em idioma de bebê - fazendo vestibular pra débil mental, já me disse um. Mas a intenção aqui não era descrever a paixão.
Além de emburrecer, a paixão enlouquece. Tira nossas sinalizações, nos faz perder a noção e o alarme. Não temos mais medo do inferno, fixamos os olhos no horizonte, desligamos a audição, e ai de quem for atravessar a rua nessas condições.
Uma vez foi o cara. Ele não tinha nada de mais mas, filho de Obá que era, entrou na minha vida agitando as saias e provocando tempestade no mar. Era o 4º semestre. Foi uma noite de Malzbiers e alta velocidade na L2 sul, e durou até o 6º semestre. Mas ele era dela, e ainda assim eu não lutei. Tínhamos um jeito esquizofrênico de nos gostar, um jeito animalesco de brigar: tapas, gritos, ofensas, ameaças. Era doentio e acabou como tal. Muita gente sofreu, inclusive ela, inclusive eu. Ele não era ninguém e não valia nada. A paixão, como fogo que era, acabou, mas ainda hoje fecho os olhos ao som daquela música, e vejo a cena daquele beijo no drive thru do Bob's. Acho que até hoje ele não sabe o quanto eu me apaixonei.
Porque paixão é dolorido. Mesmo quando tudo vai bem. Aquela dorzinha lá no fundo do diafragma, que irradia pelo corpo todo e provoca um frio intenso na barriga, aquela sensação de que tudo do pescoço pra cima está febril, que sua cara está mostrando a todo mundo o que se passa no seu coração.
Paixão é o vírus da Vaca Louca. Perdemos o controle dos movimentos.
Paixão é febre, e dá vontade de pôr na boca.
Quem tem filhos sabe que paixão é isso que não se dá nome, e se sente quando a cria dá o primeiro passo.
Sem paixão eu não consigo. Sem esse brilho no olho e essa tristeza sem fim, não sou. De acordo com os psicanalistas, isso é coisa de gente dependente de serotonina. Deve ser por isso que fiz tanta coisa errada.
Não estou apaixonada por nenhum homem, e talvez por isso esteja nadando em águas revoltas. Mas minha escolha profissional é paixão, desde o vestibular até o fim que nunca vai chegar. O calor que me dá no peito quando vejo os livros na estante. As lágrimas que encheram meus olhos quando peguei a monografia encadernada. As que rolaram quando o diploma encheu minhas mãos. O ar inflando meu peito quando digo que fiz essa escolha.
Queria que todo mundo sentisse por sua profissão o que sinto pela minha. O mundo seria menos cinza e as pessoas, menos mal-comidas.
"Nada de grandioso no mundo é feito sem paixão", e por isso fiz tanta coisa certa.
por Vevs em 15:32
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26.4.06
eu não acredito em tudo que eu mais quero
mas vivo a sonhar com você a me beijar
e essa dor que sara faz viver e acordar pra mim
eu quero ver você dançar
em cima de uma faca molhada de sangue
enfiada no meu coração
quero ver dançar
em cima de uma faca
molhada de sangue
quero ver você dançar
em cima de uma faca molhada de sangue
enfiada no meu coração
quero ver dançar
em cima de uma faca
molhada de sangue
cada passo falso que eu disfarço e não posso mais sofrer
eu não consigo mais viver sem ter, poder retalhar não sei
eu te levo e trago e não passo e está tudo bem, tá tudo bem
se eu desmonto e disfarço é porque você não vem, você não vem
mas se eu peço e renovo é porque eu te quero bem, te quero bem
Faaca, Mombojó
P.S.: Ampla, geral e irrestrita falta de coragem pra escrever o post q tá na minha mente.
P.S.: Blog novo recém linkado nos Mortais: Pouco Além do Quase, da amiga virtual e floydiana Sarah.
por Vevs em 17:12
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21.4.06
BURACO NA CAMADA DE OZÔNIO
Hoje quero aproveitar a onda melancólica e nublada da capital aniversariante e escrever sobre saudade.
Tem uma pessoa de quem sinto muita saudade; e nesses últimos dias, mais saudade do que nunca, de um jeito que não sei.
Impressionante como a língua, o idioma, tem um poder absoluto sobre nossa forma de entender a intensidade do que se sente. Enquanto uns e outros por aí só sentem falta, eu, roçando a língua na língua de Luís de Camões, me rasgo de saudade.
Andando por Brasília nublada hoje, lembrei de alguém. Amigo. Sabe amigo mesmo?
Leio as coisas que ele escrevia e me debulho em lágrimas. O filho da puta escrevia bem. Escrevia bem até na minha caixinha de comentários. O engraçado é que parece que ele não entendeu nada e pou! nossa amizade virou o que é hoje: niente.
Droga. Droga mesmo. O cara era bom, era do bem, era liiindo de doer.
Dia desses, faz bem uns 5 meses, pegou o avião e veio pra cá. Ô Brasília que era bonita nesses dias. As nuvens pareciam que iam cair do céu. Eu dizia: "Axé!", e o viado respondia: "Rexona". Razão e sensibilidade, e o bicho além de engenheiro era músico.
"Eu não sei bem com certeza por que foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia"
Aí eu olho pro porta-retratos - porque mesmo depois da crise a foto daquela franja dele na frente do Congresso ainda ficou lá - e penso: pra que isso? Pra que tanta besteira? Pra que complicar a vida com o que não precisa complicar? Pra que magoar gente que te admira, manezão?
Mas eu olho pra foto da franja dele e me debulho. Merda.
Eu queria chutar o balde e simplesmente desgostar, mas esse biltre roubou minha afeição no ato do What's Up. Porra.
Quem sabe o que é ter amigo, sabe do que eu estou falando. É esse sentimento que faz a gente voltar a ter 15 anos, lembrando do transmimento de pensação, das brincadeiras, cambalhotas e outras palhaçadas que fizeram a gente rir até ficar doente. Mas ao mesmo tempo, uma dor no peito e uma vontade imensa de falar palavrão.
Nem é paixonite, porque como casal a gente nem combina. É só saudade de um amigo que faz falta por um motivo que eu não sei explicar.
Falta. Falta absolutamente desnecessária.
P.S.: Quem sabe, sabe. Quem não sabe, fica com ciúme.
P.S. 2: Tranquilona, porque sei que ele não lê mais. Bem como não escreve. Desperdício para a blogosfera.
por Vevs em 02:40
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16.4.06
CONSPIRAÇÃO
As pessoas estão cada dia mais rasas. Ninguém é capaz de rir por rir, de diminuir a seriedade nem por um minuto.
Ser grave, ser cinza, sem sóbrio, ser rico. Placebos, placebos, é só nisso que os humanóides pensam. Por enquanto, conversar com a minha mãe é o que há de mais positivo.
Em 1984, guerra constante para Orwell. Ele foi um profeta. Muito embora a guerra não esteja aqui, sendo transmitida por uma teletela instalada em todas as casas, ela existe nesse vácuo terrivelmente barulhento que nos cerca. Ninguém tem mais conteúdo algum - fígado, pâncreas, pulmões, coração, intestinos, nada além de pedaços de carne fadados ao apodrecimento. Isso é guerra.
Conspiração. Porque eu achava que não era mais cristã e essa semana santa acabou com as minhas ilusões. A missa da quinta-feira - ceia, a reprodução da cena dos pés sendo lavados, a vigília que vai madrugada adentro. Sexta-feira, todas as procissões, a fome do jejum, o silêncio cortante das três da tarde. Sábado, a malhação do Judas, a missa da noite que é a coisa mais bonita de todo o ano: fogueira, velas, cânticos em estilo gregoriano, luzes difusas, comoção coletiva. Quem não é sugestionável nessa situação? Você volta a ser cristão, da mesma forma que reencontrar um antigo affair no mesmo local, com a mesma trilha sonora e o mesmo cabernet sauvignon vão te fazer, invariavelmente, apaixonar-se novamente por esse antigo.
Para quem acredita nas teorias da conspiração, a Igreja Católica é a maior conspiradora de todos os tempos.
E Por enquanto, preciso.
Preciso de bons livros, boa música, bons filmes.
Preciso de novos amigos, um novo companheiro.
Preciso de um emprego, preciso de dinheiro.
Preciso de silêncio para calar a boca desse barulho infernal que faz dentro da minha cabeça.
Preciso coisas palváveis, que não sejam placebos.
Conteúdo. Antes que eu me mude para uma comunidade alternativa onde haja menos hipocrisia - ou, simplesmente, corte os pulsos.
P.S.: A figura do título não faz o menor sentido, mas apareceu na busca do gettyimages. Gostei dela não fazer sentido.
por Vevs em 18:43
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7.4.06
SEVEN DEADLY SINS
para o 22º Concurso dos Blogueiros Malditos
Mulher nua de bruços na cama. Curvilínea. Homem nu descansando entre as curvas, meio de lado, afundando as pontas dos dedos na pele das costas dela, coberta de fluidos de todas as origens.
A cabeceira da cama vibra. Ela. A mulher na cama vibra junto. Risada. A cara do homem ao dizer "patroa" era um prêmio. E o desejo dela, de atender ao telefone, era o que havia de mais vil.
Sloth
Ele não atende e era óbvio. Ela rasteja até a cabeceira, preguiçosamente. Porta-retratos. A moça bonita do nariz saliente está vestida de noiva. "Patroa". A mulher se vira e toca com seus dedos finos a moldura do porta-retratos. A esposa é moça e a amante é mulher, sempre. Bocejo. A mulher não tem ódio da moça, de forma alguma. Mas o amor que tem pelo homem, que é divisor entre a moça e a mulher, não lhe dá outra alternativa.
- Sua mulher é linda - ela diz.
O homem desliza os dedos pela cintura da mulher, retira-lhe o porta-retratos das mãos e coloca de volta na cabeceira. De um só golpe, revira o corpo da mulher e a traz para si. Olhando-a nos olhos através do espelho, segurando-lhe o cabelo, diz:
- Mas ela não faz como você.
Pride
O espelho diz à mulher que não, ninguém faz como ela. Nem a moça do retrato. Sente-se cheia do homem e cheia de si, e solta um sorriso indecoroso, desses que nascem na metade do lábio e fecham ligeiramente um dos olhos. O sorriso mais vil que poderia haver.
Wrath
O homem é insuportavelmente delicado. Seu carinho é uma violencia. Sua paixão é tão suave que a mulher fica furiosa. Grita. Berra. "Odeio a sua mulher". Vingança, vingança. O homem navega no corpo da mulher, e a mulher não tira os olhos da noiva no porta-retratos. Tem ganas de matá-la. Tirá-la da vida desse homem que lhe revira o corpo. Grita de ódio. Surta, a loucura da paixão. Puxa o porta-retratos. Joga contra a parede. Espatifa o vidro.
Gluttony
Vira-se novamente e põe os seios de encontro ao peito do homem. Este tapa-lhe a boca, abafando os gritos. A mulher toma-lhe a mão esquerda, linda, e admira o abaulado da aliança. Saliva.
- Linda, linda. Não pare, amor.
Abarca o dedo anelar com a boca. O homem suspira. Ela engole o dedo e arranca a aliança com os lábios, lentamente. Traz o dedo para fora da boca com destreza e ainda mais lentidão, saboreando cada falange, olhos revirados, a falange do meio dobrando, o gosto do dedo, a textura da unha. O homem suspira profundo.
- Vagabunda.
A aliança vai parar dentro do copo de vinho. Vil.
Greed
- Você ainda vai me dar uma destas.
- Não vou.
- Vai. E ainda mais bonita. Com um brilhante. Ou no mínimo um Swarovski. Eu quero. Você vai me dar.
Envy
- A aliança da sua mulher é tão linda assim?
- É mais.
- Quero uma igualzinha.
- Vagabunda.
O celular vibra novamente. "Patroa".
Se a patroa soubesse o que é a vileza, não estaria telefonando. Estaria ali, cuidando do que é seu.
A amante é que sabe. Ela é que pensa. A amante é quem ama.
O homem se curva, diz algumas palavras sem tradução. A mulher dá uma gargalhada. Ai, a moça no porta-retratos...
Levanta o dedo médio para a noiva na foto, atrás do vidro quebrado.
O rosto da moça é viçoso e bem maquiado; mas o vidro quebrado deformou-a. Olhos, boca e nariz fora do lugar. A grinalda caída. Cacos se espalham pelo chão.
A mulher tira o homem de cima de si, e limpa com os dedos o rímel que escorreu manchando-lhe o redor dos olhos. Cabelos desgrenhados. Boca marcada, levemente esbranquiçada, como sinal de que ali já houve batom. Era como se houvesse levado uma surra.
O homem dorme. A mulher se veste, cospe no porta-retratos e sai, desentortando os pés no salto.
A moça usa rímel à prova d'água - a mulher, não.
Lust is everywhere.
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
Em Face dos Últimos Acontecimentos - Carlos Drummond de Andrade
por Vevs em 01:29
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