29.6.06
IT'S RAINING MEN
É inverno em Brasília e está chovendo.
Agora eu acredito em absolutamente tudo.
P.S.: Só para constar e não dizer que eu esqueci, sábado passado foi dia de São João Batista - e de Xangô, que a propósito também é São Pedro, de hoje, para agradar a gregos e candomblecistas. "Tataravô, bisavô, avô, Pai Xangô Aganju, viva egun babá Alapalá".
por Vevs em 18:42
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22.6.06
ASCENSÃO
Ficaram ali, naquele desconforto. O vento rangia, a luz refulgia nas lentes dos óculos dos dois. Ele a ergueu pelos braços, fazendo-a tocar o lençol de cambraia com a sola dos pés. Ela suspirou profundo, o coração disparou numa taquicardia estúpida, que ela aparou com mais um suspiro. Envolveu os lisos cabelos dele com os dedos compridos, e trouxe para si sua cabeça. Ele repousou a testa entre os seios dela, e ela o aninhou, aquele homem tão mais velho, tão maduro, que a dominava e ao mesmo tempo dormia, repousando no seu colo qual um bebê. Ele a soerguera, e seria capaz de fazê-la desabar. E por muitas horas ficaram ali: ele embalado pelo calor dos ventrículos dela, e ela flutuando, com os pés resvalando no penhasco entre o lençol de cambraia e o abismo da solidão.
por Vevs em 01:00
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15.6.06
"COM BRASILEIRO / NÃO HÁ QUEM POSSA"
Copa do Mundo, Brasil favorito total, futebol-arte dando olé nos campos da Alemanha. Brasileiro, povo unido, pinta as ruas, as roupas, o meio-fio, o trabalho, o semáforo, a casa, a cara, a puta-que-pariu, tudo de verde e amarelo. Aliás, inventam uma nova cor, o verde-amarelo, que já colore a cidade inteira. Ô, povo bonito. Ô, povo unido...
Povo unido que, daqui a 4 meses, já estará esquecendo a união, esquecendo do Brasil por quem torceu com tanto afinco, esquecendo o fedor podre que pairava em nuvens de chumbo no azul céu brasileiro. É possível até dizer que o fedor, quando entrar Outubro, já terá sido suprimido pelo cálido cheirinho de orégano das pizzas assadas no forno em forma de cúpula do Congresso. Quando entrar Outubro, as chuvas já terão voltado ao Cerrado, e terão também lavado o verde-amarelo das ruas e dos meio-fios, bem como terão lavado da memória do povo aquele desejo imenso e tão criativo de mudar alguma coisa nesse país.
Aliás, a Copa do Mundo já lavou todas as memórias. Daqui a pouco entrarão os pizzaiolos, gritando aos quatro ventos suas profecias inválidas, implorando, por amor, seu "voto de confiança", o voto de confiança de um povo 1, 2, 3, 4, 5, até 6 vezes campeão do mundo! Porque "o melhor do Brasil é o brasileiro", e o povo vota porque, além de já ter esquecido, "é brasileiro e não desiste nunca".
É pernambucano, e não desiste nunca. É gaúcho e não desiste nunca. É mineiro, goiano, acreano, paulista, baiano, cearense, e não desiste nunca! Não desiste de acreditar que de novo pode ser campeão, que pode deixar o carro aberto no estacionamento, que pode melhorar de vida, que pode conseguir aquela vaga mesmo sendo preto.
Aliás, se for perguntar pra algum brasileiro, hoje, o que é o melhor do Brasil, ele responderá:
- O melhor do Brasil? Ah, o melhor do Brasil é o Kaká, ou o Ronaldinho, ou mesmo o Fenômeno, que joga só faltando o patinho de borracha e ainda chama o presidente de bebum em cadeia nacional.
Isso é o melhor do Brasil. Porque o Brasil, na época que mais une brasileiros, não é um país, é um time de futebol.
Porque quando a lama começa a escorrer pelas ruas, quando o sangue que desce do morro espirra em quem está no asfalto, quando a ossada que encontraram na vala não era do Tim Lopes, ninguém é brasileiro. Cada um é o Fulano primo do Desembargador, que consegue seu emprego de funcionário público por indicação; ou o Sicrano que acha natural passar a perna no vizinho pra se dar bem; ou mesmo o Beltrano que não liga pro que acontece nas favelas, que acha que não tem racismo no Brasil e que quer mais é que seu pau cresça. E endureça.
Quando o Brasil deixar de ser um time de futebol, em menos de 6 meses as bandeiras já terão sido recolhidas, o espírito de nação terá sido superado, o hino terá sido reduzido a "entre os seios, ó liberdade" e "o sol da liberdade em raios frígidos". Porque o que queremos é ser Ídolos, mesmo destruindo o hino nacional.
Não estou falando de patriotismo. Estou falando de vergonha na cara. Um país que é incapaz de mover a bunda para reclamar dos governantes atitudes dignas, mas que fecha todas as portas em dia de jogo do Brasil, não tem vergonha na cara.
O dia que esse brasileiro, que é o melhor do Brasil e não desiste nunca, se unir para lutar pelo país como se une para venerar seus representantes na Copa, estaremos caminhando para a evolução.
Porque nós somos brasileiros, e não desistimos nunca de dizer que "a escravidão fez bem pros pretos no Brasil". O melhor do Brasil? Ah, o melhor do Brasil é o brasileiro, que diz que seu único orgulho de ser desse país é o futebol.
Futebol, aliás, que não tem nada de nobre ou bom. Que tem na sua frente Euricos e outros déspotas, futebol que lava dinheiro, futebol que só ganha quem tem grana, e azar de Gana, Togo, Costa do Marfim, Angola.
Azar de Angola, Congo, Bengela, Monjolo, Cabinda, Mina, Kilowa e Rebolo, que se espremem nas margens da sociedade, e alisam os cabelos e matam e morrem para estar dentro das margens. Azar dessa gente que acha que preencher o campo "cor" do Registro Geral com "pardo" diminui suas chances de estar à margem. "Vou colocar 'pardo' aqui pra te fazer um favor".
A gente é oprimido, e brasileiro! E a gente pega 4 ônibus por dia - quando os motoristas não estão em greve - e chega em casa desolado, em desespero, liga a TV e Plim!Plim!, tudo está belíssimo. A TV faz tudo por mim! Dita a moda, os costumes, o candidato em quem eu tenho de votar, a opinião que eu tenho que ter sobre o MLST, as coisas que eu PRECISO ter, mesmo que eu não tenha grana pra pagar por nada daquilo. O brasileiro não desiste nunca, porque é Globolizado.
E falando em Globolização, alguém aí sabe o que está acontecendo na Somália e no Sudão nesse exato momento? Não, não sabe. Mas sabe que a Somália e o Sudão não têm seleção na Copa.
Brasileiro, segure o Tchan! Porque o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o de baixo desce!
É taça na raça, Brasil!
"Incrível! É melhor fazer uma canção.
Está provado que só é possível filosofar em alemão!
Se você tem uma idéia incrível, é melhor fazer uma canção.
Está provado que só é possível filosofar em alemão!"
Pague pau pra sua pátria porque nela tem uma Amazônia, um Pantanal, um resto de uma Mata Atlântica, praias exuberantes, futebol, mulata bunduda e Carnaval! E esqueça que o Meio Ambiente está virando 1/3 Ambiente.
E pague pau pro cara que te dá camiseta e dentadura, você vota no 15151 e ele compra um iate com seu dinheiro.
E pague pau pra tua patroa do Recreio, que te paga salário de fome por casa limpa, comida na hora, roupa lavada e passada e bebês cuidados e que, pagando salário de fome, aproveita pra comprar o primeiro carro do seu filhote, e não deixa a grana circular. Pague pau pra ela que, daqui a poucos anos, teu filho vai descer do morro e roubar o carro do filhote dela, pra que a grana, finalmente, circule.
Eu falo, porque o instante existe, e meu coração está apertado pela falta de cuidado dos brasileiros consigo mesmos.
"A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, eu tenho mátria e quero frátria."
por Vevs em 15:14
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13.6.06
Hiatus sentimental de 6 + 4 dígitos.
By the way, hoje é dia de Santo Antônio - e de Ogum, pra agradar a gregos e candomblecistas.
por Vevs em 00:59
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6.6.06
BREAKING NEWS
Joanas erram constantemente. Erram na dose, erram no amor, Joanas erram de João. Joanas ficam frustradas com a universidade sucateada, com o emprego ruim, com o salário de fome que nunca sai em dia. Joanas frustradas na cama, com seus Joões do pinto pequeno e do orgasmo de 4 minutos e meio.
Joanas que cerram as portas pra fazer fofoca entre 4 paredes, pra fazer conchavos por telefone, pra fazer intrigas por email.
Alguém abre de surpresa a porta, de capta o fim da conversa: "recebe pra fazer 10? Bobo é outro." Pronto, a sala já está cheia de frustração, mal-estar, e as frustrações rebatem nas paredes e não saem pela janela, e rebatem nas paredes. E as paredes têm ouvidos, porque as Joanas colam nelas suas orelhas, a fim de ouvir tudo o que ali se passa.
As Joanas despejam nos outros suas frustrações, e são frustradas por isso mesmo. Como disse o Chico Buarque, "a dor da gente não sai no jornal".
Denunciem, gritem aos megafones, pessoas frustradas!
Despejem aos meus ouvidos suas frustrações, sejam desagradáveis, inconvenientes, provoquem toda sorte de desconfortos!
Sejam a jovem mãe que anuncia pretender dar o pé no marido, sejam a noiva que admite a traição do seu consorte, sejam a prostituta que, fodida e mal-paga, permanece dando a bunda ao patrão.
Sejam todos vazios e pessimistas, rasos, ralos e mal-cobertos. Gritem mesmo, bem alto as suas frustrações, porque "a dor da gente não sai no jornal". Enquanto isso, eu como sonhos recheados de creme e bolos-de-rolo recheados de goiabada.
"Tentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de joão
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal..."
Notícia de Jornal, Chico Buarque
por Vevs em 23:34
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