29.8.06



"Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d'água, borboletas no aquário...
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo;
Puro sangue, puxando carroça.

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra
Vaidades que a terra um dia há de comer.
Ás de espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário;
Muito prazer, me chamam de otário
Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento...
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento...
Muito prazer, ao seu dispor
Se for por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas."

Dom Quixote, Engenheiros do Havaí.


Em homenagem a um grande e caro amigo, por amor às causas perdidas.

por Vevs em 10:50
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Comenta, mas não empurra: 23.8.06



It is the springtime of my loving - the second season I am to know
You are the sunlight in my growing - so little warmth I've felt before.
It isn't hard to feel me glowing - I watched the fire that grew so low.



It is the summer of my smiles - flee from me Keepers of the Gloom.
Speak to me only with your eyes. It is to you I give this tune.
Ain't so hard to recognize - These things are clear to all from time to time.



I've felt the coldness of my winter, I never thought it would ever thaw.
I cursed the gloom that set upon us...
But I know that I love you so



These are the seasons of emotion and like the winds they rise and fall



This is the wonder of devotion - I seek the torch we all must hold.



This is the mystery of the quotient - Upon us all a little rain must fall.
Just a little rain...



Celebrando a chuva.
Sobre todos nós, um pouco de chuva deve cair.
Todos. Bons ou maus, próximos ou distantes, homens ou mulheres.
Porque ainda há bem, mesmo que escondido entre nuvens e defendido por raios.

Esperança, brilho, fertilidade, amor, frescor, carícia, sacralidade. Eu vejo a tocha que todos nós devemos erguer.
A chuva cai como uma lenta e constante oração. É música sagrada. Não é difícil reconhecer - essas coisas são claras para todos, de tempos em tempos.

Vejo da janela os faróis dos carros, e as linhas paralelas que os pneus traçam nas vias. Suas luzes vermelhas. A bruma. A cortina de chuva encobrindo de majestade. O lusco-fusco da tarde tornando tudo de azul. Meus olhos lacrimejam.
Vou à chuva. Nela entrar, e caminhar.

Ao som e à vibração de The Rain Song, Led Zeppelin.

por Vevs em 14:51
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Comenta, mas não empurra: 15.8.06



Caminhou até o frigobar, como quem procura algo onde se apoiar quando está embriagado. Ele a embriaga, sempre foi assim, embriagante de gargalhadas e de um prazer sem sentido, desses que deixam o corpo dormente e ao mesmo tempo sensível - sensações que só drogas ilícitas são capazes de provocar.

Apoiou-se. Apoiou-se, e urgente já era o corpo dele como um atropelo de selvageria, navio pirata se aproximando a bombordo e erguendo-lhe a saia. Ai, muitos ais, e urgente já era a mão dele devassando o corpo dela a meia-nau, e a mão dela, puxando dele os cabelos da nuca.

Era muito. E a nudez que já não era segredo se torna brinquedo. Ele vinha, ela ouvia-lhe os sinais, e vinha ele com a fúria de uma tempestade no oceano, capaz de apagar-lhe o fogo a estibordo, mas qual. Tudo se tornava fogo, nessa guerra de embarcações corsárias.

E as ondas vinham e voltavam e não eram serenas. Eram dois íntimos e desconhecidos como a nau e as águas do mar, como as águas do mar e a nau. Ela tomou o poder, tomou o mirante inimigo e nele subiu, e navegou-lhe com a majestade de quem domina o barco, mesmo que não seja seu. Navega o barco alheio de sobre o mirante, ondulando como o mar, e sorri um sorriso vil como quem encontra terra à vista.

Desliza as mãos sobre o peito dele. É lindo, é sagrado. Delírio de navegação.

Novamente o corsário a bombordo, com os cabelos dela nas mãos, ora bebendo-lhe o sal da nuca, ora mirando a terra à vista no horizonte.

Terra à vista. Os barcos ricocheteiam, pousam na crista da onda, descem com fúria. Encontram-se, proa com popa, canhões em riste um ao outro, explodem, explodem, explodem. Explodem sonoramente, era o fim da guerra, era o fim das tensões, eram as chamas possuindo as tábuas da nau, consumindo o tecido das velas, passando a fio de espada os torpes bucaneiros.

O corpo dele envergado ao alto, o corpo dela derretido entre lençóis. Nenhum dos pares de olhos abertos. Nenhum dos corpos efetivamente mortos.

"E os teus lábios forem duas margens
Um gritando 'calmaria', outro clamando 'tempestade'...
Eu voltarei, de corpo e barco, voltarei
E por ti seguirei minha viagem
Navegarei entre seus braços e desejos
Eu serei teu búzio
Tu serás o meu degredo."


por Vevs em 18:36
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"QUANDO O MEU BEM-QUERER ME VIR"



Às vezes - e elas não são poucas - paro pra pensar na solidão e no estar junto.
Pra mim, estar junto é fundamental, embora seja parte de mim ser só.

Em muitos momentos da mitologia yoruba, Oxossi, o orixá das matas, da caça e das provisões, é encontrado em profunda solidão. A solidão faz parte dele, e o torna elegante, esguio, poeta. A solidão faz Oxossi ser o que é, caçador, porque apenas só é possível entrar na mata e fazer a caça. A elegância solitária desse caçador, que adentra a mata de arco e flecha em punho, e espera pacientemente a caça, em total silêncio, na mais profunda solidão, numa melancolia quase musical. Estar só é pré-requisito básico para ser um caçador de sucesso nas matas de Oxossi. Ser paciente também.
A solidão faz desse lindo orixá o que ele é.

Mas é preciso estar junto. Estar junto por inteiro, por completo, andar ao lado, partilhar, ser metade que, junto, forma o todo. E por isso mesmo, Oxossi é casado com Oxum.
Oxum é a deusa yoruba das águas, da fertilidade e do sexo. É basicamente o amor. É linda, vaidosa, cheia de sensualidade, calor, e filhos. Está sempre sorrindo, sempre acompanhada, sempre fazendo amor, sempre amamentando. É o contraponto exato e ideal à personalidade de Oxossi.

O exemplo desse casal divino e mitológico é para mim o exemplo mais claro do que seja o verdadeiro estar junto. Oxossi é a mata e Oxum é o rio. Não há mata saudável sem rio, e não há rio vivo sem mata. As águas moram no coração, no mais profundo e denso da mata, e isso é o mistério inefável do amor. É estar um dentro do outro, de maneira que, se tiram um, vai-se o outro.

São o rio e a mata, Oxossi e Oxum, o perfeito resumo da parceria completa, do companherismo sem reservas, do estar junto total.
Não é à toa que, juntos, Oxossi e Oxum tem um filho que equilibra perfeitamente o masculino e o feminino, o frio e o quente, o arco e flecha e o espelho, a mata e o rio. E por isso, é lindo e pleno, Logunedé, chamado príncipe dos orixás.
Porque os frutos do amor são sublimes como Logun.

Nessas horas, eu penso no que sinto e senti, e nas pessoas que já vivi. Adentrei às matas pessoais de algumas pessoas, e não tenho tanta certeza de haver encontrado rios dentro delas.
Outras, eram o rio. E eu quis ser a mata, quis envolver de carinho e verde bens tão preciosos.

Hoje, me pergunto sobre essa solidão. É necessária? Claro. É agradável? Nem sempre. Mas eu sou de Oxossi, e esse orixá me ensinou a viver a melancolia e o estado de solidão com paciência, de armas em punho, porque a caça sempre aparece. O rio tambem.

Não é estar só de estar só, mas estar só de suspirar e ouvir o eco dentro do coração.
(Embora meu coração toque música e acredite nos rios e cachoeiras, toda vez que olho pra umas certas franjas em fotografias.)

Essa foi uma ode ao amor, com base na filosofia yoruba. Filosofia feita de amor.
Acredito nele, como acredito em Deus. Não há como crer em Deus sem crer no amor, e vice-versa. Os deuses são amores que cultuamos. Oxossi e Oxum.

"Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos o umbrais

E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria, assim, dos animais

E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás"

Bem Querer, Chico Buarque


Okê Arô.
Ora Yie Yie.

por Vevs em 01:15
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