27.10.06
DAS COISAS BONITAS DA VIDA
Eu nunca pensei que aquilo pudesse ser romântico. Nem tão romântico como é. Maysa cantava, pedindo para que não a deixasse, e meus olhos estavam úmidos, colados à fotografia que me chegava por meios digitais.
Por que sou assim? Por que eu sou capaz de ver essa imagem, essa figura ofensiva, e não enxergar nela a ofensa, apenas sua força criadora, sua doçura humana e - por que não - seu poder romântico?
Acalentava aquela imagem com toda a carícia de que eu me sentia capaz.
É isso mesmo que guardo entre meus 6 lábios, todos os dias. Reconheço, e seria capaz de reconhecer em qualquer lugar, a qualquer tempo. Reconheço, e mesmo agora usando só a visão, todos os meus sentidos funcionam perfeitamente, no exercício de me trazer de volta o significado dessa presença masculina que me faz feminina.
Não há paradoxo nessa constatação. Da mesma forma que não há inferno sem céu, nem aiyê sem orum, nem nirvana sem samsara, não há feminino sem masculino. Meu feminino talvez nunca teria despertado sem a presença desta arma masculina, arma branca, cálida, macia, quente, perfumada e saborosa. Seis sentidos, apenas dois entes e um significado.
P.S.: E pensar que isso daqui já foi um blog de humor. Essa vida é um processo.
por Vevs em 14:30
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24.10.06
O SERTÃO VAI VIRAR MAR
Tentei copiar, filmar, estender. Mas ele me amou, e eu não enxerguei mais nada. Vi apenas o céu cuspindo bolas de fogo, enquanto nossos corpos se transfundiam luz, num abraço envolto em neblina matinal. Montanhas se atiravam ao mar, que se derramava sobre o continente e afogava os viventes. Mães sepultavam filhos, filhos estrangulavam mães, corpos boiavam em rios de sangue, mas ele me amou nessa hora, nessa exata hora, e eu não era mais ninguém. Um raio partiu o céu ao meio, e o universo desabou; um grande pulso no coração do cosmo amalgamou tudo o que havia numa só massa de energia. Mas ele me amou nesse exato minuto, e tudo o que eu era eram os olhos dele ficando cerrados, seus lábios se aproximando, seu corpo envolvendo o meu e um grande pulso tomando meu peito. Uma só massa de energia, e eu sempre sonhei encontrar meu coração misturado aos lençóis.
"Open your heart / I'm coming home."
por Vevs em 11:27
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20.10.06
THE SUNLIGHT AND THE GROWING
Algumas pessoas são como campos de grama. Ao longe são um tapete verde, felpudo, macio, que enche os olhos e se estende por quilômetros a fio, um pasto maravilhoso, um gramado perfeito, que a cada hora do dia, dependendo da inclinação e da intensidade dos raios de sol, alterna entre todos os tons de verde possíveis. Porém, quando se vai até ele, há muito mais folhas secas e marrons do que verdes e vivas. O gramado, na verdade, não passa de um amontoado de ilhas de capim rasteiro, deixando à mostra o solo abaixo delas, o solo ressecado e sem qualquer atrativo.
Como diz o ditado muito engraçado, "assim como são as pessoas, são as criaturas".
Mas gente não é nem tem que ser campo de grama. O céu que desaba sobre as cabeças dos homens, desaba sobre todos nós, e pra segurar o céu que desaba, é preciso ser gente. E pra ser gente, não basta ser lindo.
Transparência, generosidade, simplicidade, força, doçura, elegância, beleza, conteúdo, inteligência, valores e sabedoria - bata isso no liquidificador e terá a pessoa com quem todos querem conviver (pelo menos todas as pessoas de verdade). A pessoa que segura o céu com a maestria e a majestade das palmeiras imperiais dos fundos do Congresso Nacional.
A você, quem quer que seja, desejo que sempre segure o céu que desaba.
Quem quer que seja hoje, quem quer que tenha sido, conhecido ou desconhecido, segure o céu e seja gente. Não seja pasto.
Porque gente é o que há de mais belo. E está em falta.
Entre no eixo, invada seu interior, se conheça. "Apareça dentro de si"*.
Se for assim, será gente, e eu, mesmo sem te conhecer hoje, te amarei pro resto da vida.
Se for assim, será lindo sem querer. Mais do que um belo campo gramado. Será iluminado.
"Gente é muito bom, gente deve ser bom".
Parabéns. Por ser gente.
P.S.: Meus posts estão ficando cada dia mais malucos, tô sabendo. Mas o post reflete o estado de espírito da autora.
* Essa frase me foi dita por uma pessoa desconhecida, em sonho. Acordei na hora exata e anotei. Quem acredita em sonhos, ou espíritos, ou whatever, como eu, deve ter ficado arrepiado como eu fiquei.
por Vevs em 16:47
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17.10.06
EU NÃO SEI DANÇAR
Ah, mas eu gosto de me torturar, sabe? Gosto. Tenho um prazer enorme nas coisas que me doem por dentro.
Companhia que vende pacotes turísticos, eu vou lá só pra ver as promoções pra Buenos Aires. Um dois três, um dois três, segura com firmeza. Aquela outra loja me lembra os sapatos com palmilhas confortáveis de gel e silicone que ele tanto gosta. Drakkar Noir e os óculos escuros que ele guarda no bolso da camisa antes de sentar-se à mesa na hora do chá. Esquerda, direita, e meu coração fica completamente aos pulos. A ausência dele, seja lá quem ele seja, dói fria e sonolenta. Brasília parece Londres, e quando sinto o cheiro do mate, penso na primeira vez em que nossos olhos se cruzaram. Cruza, descruza, joga a dama, apara com o braço esquerdo. Um garoto solitário passa rápido, e no seu agasalho tem bordado "Argentina". As lágrimas brotam. Meu corpo suspira ais, porque não foi dessa vez que ele virou criança no meu interior.
- Eu quero você, e não quero mais nada. Não quero nada que não seja seu, nada que venha de fora de você, nada que não te pertença. Quero o que sobrar de você quando você for à falência, quero o que ficar com você depois que dividirem seus despojos, quero o que você ainda tiver quando te faltarem saúde, família, emprego, amigos, juventude. Quero sepultar seu corpo no último dia, com o carinho, a dor, o calor, o medo e o êxtase de tortura que sinto quando te sepulto no ritual do Maithuna e te protejo como a bainha à espada. Você me acende a divindade, me ilumina a voz e me floresce, e eu não posso querer mais nada.
Chuva com sol. Ele aperta os olhos e meus lábios pousam um beijo na ponta do seu nariz.
por Vevs em 11:16
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14.10.06
Desbravando minhas próprias florestas interiores. Hiato. Tentando calar os ecos. Não me peça muita explicação, porque nem eu tenho.
"E eu de longe só pedindo pra você se expor"
por Vevs em 00:54
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9.10.06
TRIBO DOS PEGANÍNGUEM
Me assusta profundamente o comportamento masculino que tenho observado nos últimos tempos. Não que o comportamento masculino seja digno de aplauso o tempo todo mas, ultimamente, a safra de homens em estado de desespero agressivo tem aumentado consideravelmente.
Primeiro que quase todos eles têm me parecido desinteressantes. O movimento padrão de azarar, chegar junto, dar o approach inicial já é um banho de água fria que até mesmo os mais bonitinhos e pegáveis são capazes de dar. Eles abrem a boca e o tesão corre pela saída de emergência. Todo mundo parece meio burro, meio sem conteúdo, meio igualzinho. Tudo parece meio coisa de moleque.
O que quer parecer diferente, intelectual (P.I.M.B.A.*), descolado, usa droguinhas idiotas, fuma Lucky Strike, usa chapéu-coco do Laranja Mecânica, óculos de armação preta quadrada e grossa de poliuretano, e fala sem parar de livros que nunca leu, filmes que nunca viu, bandas (ruins) que acredita serem a crista da onda da vanguarda. Eles até são bonitinhos, até são interessantes, mas ficam muito chatos em pouquíssimo tempo. O negócio deles é competir intelectualmente, fazer a moça se sentir burra e deixá-la bem, mas bem insegura mesmo.
Os outros, mais padrão ABNT, mais comuns, usam franjinha de alça de boquete, foram às 4 últimas MicareCandangas (e, se for o caso, viajam até Caldas Novas de carro pra ver o Babado Novo), só usam bermudinha florida e sandália havaiana, mastigam chiclete compulsivamente e pegam qualquer portadora de buceta que dê algum mole. O negócio deles é gozar, de preferência rápido e agora.
A última categoria abrange a totalidade dos cidadãos que buzinam, piscam o farol do carro (ou do ônibus), chamam de "princesa", gritam impropérios de toda sorte pelos vidros dos carros, assoviam, mastigam palito de dente, e têm sua única chance de alguma aproximação nos momentos e lugares de extrema aglomeração, nos quais eles pegam a dama pelos cabelos, esbarram pra dar um jeito de pegar na bunda, quando não agarram pelo braço e arrastam a mulher na base da força (só faltava o tacape pra dar na cabeça delas). O negócio deles é agredir, já que geralmente não atraem mulher nenhuma.
O que une essas três "diferentes" categorias numa só é uma característica imutável: os três tipos comunzinhos de homem não pegam ninguém. Ou melhor, pegam, mas só mulheres da mesmíssima categoria. Se pegam, não mantém. A semelhança? Nenhum deles conhece mulher, nenhum deles sabe tratar uma mulher. Não sabem que delicadeza, elegância e inteligência não são sinônimo de viadagem ou de frescura, mas são instrumentos imprescindíveis pra se dar prazer a uma mulher, para se fazer uma mulher feliz.
E nós não estamos acostumadas a esse tipo de homem. Estamos acostumadas a homem daqueles três tipos, estamos acostumadas a ser tratadas como uma bunda (quiçá só uma vagina), estamos acostumadas a ser "filés", "princesas", "gatas", "gostosas". Estamos acostumadas a ser apenas máquinas para uma punheta 3.2, a ser objetos de decoração. 80% das mulheres do mundo não conhecem um orgasmo (ou seja, fingem que é uma beleza), não sabem o que é gozar, não gostam de sexo. Por motivos óbvios, e não é culpa delas, fique claro.
Mas há esperança. Ainda existem os delicados, elegantes e inteligentes, que tratam a mulher do jeito certo, tão certo que ficamos desconcertadas. Fazem-nos sentir bonitas, as mulheres mais bonitas do mundo; fazem-nos sentir seguras para mexer, gemer, falar, fazer e acontecer. Tratam-nos como mulheres completas, como complementos imprescindíveis à vida do homem. Fazem de nós mulheres absolutas.
Homens standard, tribo dos Peganínguem, tremei. Uma mulher, pelo menos uma, já descobriu que há algo muito melhor no final do arco-íris. E não é vocês. Vocês dançaram, e continuarão dançando, quanto mais a essência do feminino for descoberta por cada uma. Resta a vocês descobrirem a mesma. Não é impossível.
P.S.: Post totalmente de mulherzinha. Espero muitos comentários de amigas, e quase nenhum de amigos.
P.S. 2: Apesar de o Blogger não ser bloqueado pelo sistema big brother moralista do meu trabalho, o MEU blog, só o meu, está terminantemente bloqueado em qualquer computador da instituição. A mensagem que aparece é "Limite de frase excedido". Por que será?
*Pseudo-Intelectual Metido a Besta & Associados
por Vevs em 21:50
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7.10.06
CRIADO-MUDO
Ouvia o barulho da água no cômodo ao lado. Braços exaustos, coração em frangalhos. Era só disso que entendia, agora. O couro cabeludo coçava, a cabeça doía. O cheiro do sexo recente subia às narinas. O tic tac do relógio de pulso ecoava. Estava só com seus fantasmas, com suas dores, com suas masturbações. Estava só, com o calendário que findava, e um desejo terrível de usar drogas fortes que a mantivessem longe da depressão do Dia de São Silvestre.
Estava em silêncio, mas sua cabeça alimentava o eco dos berros que saíam de sua alma. Não entendia esse deus em que cria. Berrava em silêncio, com um berro doentio, pedindo a esse deus que se mostrasse, que viesse a cavalo dando um brado bárbaro, que parasse o tempo e a história, que a transpassasse com espada afiada. Por que esse deus se calava? Por que, mesmo calado, latejava? Por que ela tinha fé, e o sentia cálido e doce nos átrios das igrejas, nas pilastras das mesquitas, entre as paredes das sinagogas, no xirê dos orixás, no fogo pagão, na dança de Shiva? Berrava como São Francisco, silenciava como Santa Clara, chorava entre lágrimas. Se tocava furiosamente, evocando aquele prazer urgente e insípido das pontas dos dedos, e entre frêmitos e tremores, se questionava, pensava em sua miséria, em sua tristeza, em toda essa solidão que ecoava. Gosto de sangue na boca. Paixão gotejando por todos os poros. Têmporas frenéticas. Eles pareciam seu deus: cheiravam a noz-moscada e cravo, e apareciam fulgurantes na fotografia, beijando damas delicadas de cabelos compridos e com muito, muito mais sorte do que ela.
por Vevs em 00:09
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2.10.06
FEMININESCENDO
O homem é jardineiro, com suas mãos ternas, quentes e suaves.
O meu sexo é flor. Meu sexo é feminino.
O homem me abre as pétalas, uma por uma, delicado, suave, perfumado. Sua visão é de um todo, eu nas suas mãos sou jardim e não apenas uma flor. Ele, jardineiro, adentra a densa mata do meu existir humano, do meu existir como jardim, e faz brotarem flores do meu corpo.
Ele me abre, arando a terra e plantando em mim sementes de feminilidade. Fertiliza-me, como se meu ventre fora solo, e era, antes dele, apenas solo infrutífero. Somente um jardineiro é capaz de insuflar vida no que antes era solo, e plantar flores nos olhos de uma mulher. Porque não se nasce mulher, mulher se floresce. O encontro definitivo com o feminino é um florescer, é abrir-se pétala por pétala, de dentro para fora.
O homem é jardineiro, abre-me as pétalas como fosse um trabalho sagrado, e não me vê mais a flor primordial como uma mera beleza do jardim, mas como a yoni que me descobriu ser. Guardo o homem jardineiro nos múltiplos templos do meu existir, e ele tem esse direito, porque como templo me descobriu, e como templo me plantou.
O jardineiro me fertiliza, e assim sou eu, nova, nascendo, florescendo, femininescendo.
por Vevs em 14:34
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