30.1.07

POÇAS



Era o Setor Comercial Sul. Não havia sombra de dúvida. Suor, urina, sangue, churrasco, milho verde cozido em panelões, com água provavelmente da chuva. Houve chuva o dia todo, uma chuva fria, fina e intermitente. Agora era hora das maquiagens derretidas, cabelos desalinhados, olheiras. Gente é sempre gente. Gente às seis da tarde, horário de pico, é mais gente do que nunca.

Mexo nos bolsos. Alguns níqueis tilintam do lado direito. A bolsa nova pesa do lado direito. O corte de cabelo recente, lavado e perfumado, não mais pesa. A mulher, sentada no ponto de ônibus do Gama, me olha com uma faca em cada olho. Uma faca em cada olho, e rasgos, provavelmente de faca, costurados pelo rosto. Marcas de queimaduras, e essa mulher veste farrapos e tem os pés descalços com as unhas mal pintadas de vermelho - vermelho da cor do esmalte novo que passei nas mãos antes de sair, às 7 da manhã. Fumava um cigarro apagado, cheirava a Setor Comercial. Teria dormido na rua, ou talvez nem tivesse dormido, entrada em alucinações causadas pela fome. Talvez tivesse cheirado o esmalte vermelho depois de passá-lo nos pés, talvez tivesse se queimado com o isqueiro com que deveria acender o cigarro, talvez tivesse dormido na rua. Ela tomava conta do ponto, porque cheirava a Setor Comercial - suor, urina, sangue, churrasco, milho verde cozido em panelões, com água provavelmente da chuva.
O corte de cabelo dela era igual ao meu. Pouco menos crespo, mais embaraçado. Uma pele negra tão negra quanto a minha, e talvez ela tivesse a minha idade se não houvesse tantas rugas do sol, tantas peles flácidas, tanto brilho de faca nos olhos. Essa mulher era um reflexo de mim, do meu pior eu, do meu lado mais humano. Porque às seis da tarde, os humanos são muito mais humanos.

"Tenho fome", pensei, ouvindo o rugido do meu estômago. Porque às seis da tarde, hora do rush, somos tão humanos que sentimos fome e nossos estômagos rugem, não roncam. O tilintar dos níqueis no bolso direito, o cigarro da mulher sendo aceso, e por um real eu pude comer um milho verde.
Sentei-me no ponto do Guará, dois depois do ponto do Gama, onde se abancava a mulher. Dona do mundo, dona do meu cabelo novo, da minha bolsa pesada, dos livros que me pintavam mais sábia, dona dos meus níqueis, dona do milho verde. Uma mordida - que prazer. Ele estava quente, queimou-me o palato, soltou-lhe um fiapo de pele. A margarina derretia, havia ainda uns fios de cabelo ruivo de milho entre os grãos, e a palha verde do milho fazia as vezes de guardanapo. Misturei os sabores ao cheiro infecto do churrasco de carnes duvidosas que erguia bolas de fumaça logo atrás, e me senti poderosa por ser a moça vegetariana que não compactua.

Então a mulher surgiu, parou ao meu lado, de pé, de soslaio, com o cigarro aceso na mão direita. Olhou-me com metralhadoras nos olhos. Encarou-me. Tinha ódio porque eu comia, tinha ódio porque eu me sentava, tinha ódio porque meus pés estavam secos e eu era mais uma entre os ciborgues que esperavam o ônibus para casa, cheios de reclamações no chip de memória. Eu iria para casa, ela teria a rua e a água salgada e suja que escorria dos panelões de milho verde para beber. Ela me olhou com todo ódio do mundo, e eu desviei o olhar e recobri a espiga com a palha, com medo de que a espiga sucumbisse ao olhar.

Coloquei óculos escuros - a mulher me olhava. Meu estômago embrulhou - a mulher me olhava impassível, dez mil anos mais velha que eu, mas era eu no reflexo de um espelho de dez mil anos atrás. Vi seus pés de esmalte vermelho, vi suas roupas em farrapos molhados, vi suas cicatrizes de guerra, vi as lâminas que cintilavam-lhe nos olhos, vi o corte de cabelo, igual ao meu, igual.

Foram dez segundos. Ela caminhou em direção ao nada, talvez o ponto de ônibus do Gama, e eu respirei fundo. O milho ainda estava quente. Então suspirei, fechei os olhos e vi Gandhi na memória. "Não posso salvar o mundo, que se dane, tenho fome", pensei. Roí os últimos grãos, que prazer, e joguei a espiga, a palha e a dignidade do mundo inteiro na lixeira atrás do ponto.
Entrei no ônibus, acoplei o MP4 nas orelhas, e fui pra casa ouvindo os níqueis tilintarem. Veria a mulher amanhã, mas amanhã sabe lá deus, depois ela já morreu de fome, ou de frio, ou de intoxicação alimentar.

Tive dez segundos de humanidade na hora mais humana do dia. Depois disso, fui incapaz. Tornei-me um ciborgue de memória infinita para dados inúteis de uma ciência inócua, mas o brilho do olhar daquela mulher, mesmo sendo agudo e doloroso, não me feriu.
Agora meu esmalte vermelho descasca, meu corte de cabelo já está sujo e armado, meu estômago arde em azia, tenho gases, depois da passagem do milho verde. Amanhã, no mais tardar, o milho estará na privada e meu trapézio estará doendo pelo peso da bolsa que carreguei.
Humana, demasiado humana, às seis da tarde, e quem sabe assim serei gente, sob o peso do julgamento do brilho do olhar daquela mulher. Da brasa do seu cigarro. Do seu cheiro de gente. Gente que eu não sou.

por Ela às 23:11


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26.1.07



Little by little the night turns around.
Counting the leaves which tremble at dawn.
Lotuses lean on each other in yearning.
Under the eaves the swallow is resting.
Set the controls for the heart of the sun.

Over the mountain watching the watcher.
Breaking the darkness
Waking the grapevine.
One inch of love is one inch of shadow
Love is the shadow that ripens the wine.
Set the controls for the heart of the sun.
The heart of the sun, the heart of the sun.

Witness the man who raves at the wall
Making the shape of his questions to Heaven.
Whether the sun will fall in the evening
Will he remember the lesson of giving?
Set the controls for the heart of the sun.
The heart of the sun
The heart of the sun
The heart of the sun
The heart of the sun
The heart of the sun
...

Set The Controls for The Heart of The Sun, Pink Floyd


por Ela às 12:03


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16.1.07

ARTIGO DEFINIDO



Desfalecer, esvanecer, esmorecer. Verbos. Os verbos adentraram a pele, revolveram os cabelos, feriram. E lá se vão os anéis.
Ela nunca pensou que aquilo fosse possível, aquela sensação naquele tom de azul, o mais que tênue véu que separa a dor do prazer, do paroxismo do gozo.
Superar a dor, desvelar o prazer, desfalecer. A invasão dos preconceitos em posição fetal. Encher a alma de verbos.
Abrir-se às potências. Elevar à potência máxima, permitir-se permitir.

Todo lugar onde dói é capaz de causar prazer. O prazer se desvela e o corpo é tomado por impulsos: elétricos, estáticos, desumanos. Todo esse prazer é desumanidade.
E isso é o desfalecer: é uma explosão tão intensa que a alma abandona o corpo. Abandona-se o Self - desumanidade. O ser deixa o corpo para que haja espaço para a presença intimidante das armas do ser amado.

E ele vem armado. Apenas o preparo à mira, um suspiro e um disparo, e o ser se vai, numa explosão, de dentro pra fora - dissolve-se, derrama-se, esparrama-se, sublima-se. Esmorecer, esvanecer, desfalecer.
E lá se vão os anéis.

por Ela às 12:18


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10.1.07

"ENVELHEÇO NA CIDADE" #23



Esta coisa de ter dia de nascer é dubiamente maravilhosa. O pessimista se levanta, dia 10 de janeiro, olha-se no espelho e diz: "Menos um ano. Estou morrendo". O otimista se levanta, dia 10 de janeiro, olha-se no espelho e diz: "Mais um ano. Estou vivendo".
Dia de nascer. No nosso dia de nascer, desde o dia em que nascemos, somos paparicados, privilegiados, acariciados, presenteados, entupidos de sabores e cores. (Tudo bem, o dia seguinte é sempre uma ressaca, uma fila de banco, uma briga com marido - mas sempre de roupa nova, indeed.)
Hoje eu me olhei no espelho e disse: "Menos um ano. Que pena, minha pele tem estado ótima nos últimos tempos. Estou morrendo de felicidade. Mais um ano".

Eu não me importo com nada, desde que me deixem ser aniversariante uma vez por ano. Sentir aquela dorzinha do silêncio e da solidão imensa que eu atravesso, todo dia 10 de janeiro, às 18 horas e 30 minutos. Uma imensa letargia nesse processo de encontrar a razão pra um dia, ter nascido - que eu me faço essa mesma pergunta desde então. Os presentes, o beijo, a banheira de hidromassagem, o bolo, a festa surpresa, o Crepe au Chocolat... e a solidão silenciosa das 18:30, pesada e branca, como uma bruma tão densa que se corta com os dentes. Quem sou eu, de onde vim, pra onde vou, como se fazem televisões.

Mas hoje eu não me forço a responder. Hoje não. Hoje eu estou criança e feliz, e eu deixo esses dramas metafísicos de lado. Mas só até amanhã.

por Ela às 13:48


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8.1.07



Beyond the horizon of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had begun

Along the Long Road and on down the Causeway
Do they still meet there by the Cut

There was a ragged band that followed in our footsteps
Running before times took our dreams away
Leaving the myriad small creatures trying to tie us to the ground
To a life consumed by slow decay

The grass was greener
The light was brighter
When friends surrounded
The nights of wonder

Looking beyond the embers of bridges glowing behind us
To a glimpse of how green it was on the other side
Steps taken forwards but sleepwalking back again
Dragged by the force of some inner tide
At a higher altitude with flag unfurled
We reached the dizzy heights of that dreamed of world

Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river

Forever and ever

High Hopes, Pink Floyd.


P.S.: Deveras melancólica. Taciturna. Descompensada. Um poço de tristeza sem sentido.

Adendo feito no dia 09/10
Em tempo: Daniela Cicarelli perdeu a noção. Perdeu o juízo. Para dar na praia, lugar público, ela tem liberdade. Mas o resto do povo do país onde ela nasceu, não tem liberdade pra ter acesso ao produto cinematográfico que resultou disso - e mais, não tem liberdade para ter acesso a mais nenhum. Não queria ser filmada, fosse dar num lugar privado. Agora tem o rei na barriga e se acha no direito (e, obviamente, montada na grana) de tolher a liberdade de 180 milhões em ação. Que coisa linda, Cicarelli. Ridícula. Risível. Absolutamente fora da noção de qualquer coisa relativa à vida em sociedade. Compre Sealand pra você e proiba terminantemente as câmeras e o YouTube no país. Ali sim você poderá dar sossegada dentro do mar. Só não tolha os meus direitos. Babaca. (Aliás, melhor eu e os outros blogueiros e colunistas do mundo tomarmos cuidado com o que dizemos! Depois ela nos processa e faz nossos blogs virarem um Erro 404. Deuzulivre.)



por Ela às 18:02


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