14.2.07
"WELCOME, MY SON, WELCOME TO THE MACHINE"
Despertador toca às seis, eu não levanto. Aperto o soneca, viro pro canto, toca de novo, defenestro o relógio.
- O que você fez na sua vida, vó?
- Eu, netinha, trabalhei. De segunda a sexta, das 8 às 18.
Corro pro ponto de ônibus, roupinha não tão sexy que desconcentre os machos predadores em questão, nem tão comportada que me tire de circulação. Chove, e quando chove assim de manhã eu prefiro dormir. Mas eu vou fazer o que faço todos os dias, das 8 às 18. Clicar o mouse, rolar uma tela, fingir que produzo, e a cada minuto que passa ver o sentido disso se dissolvendo lentamente, numa espécie de letargia trabalhística.
E os seres por trás das máquinas já estão hipnotizados. Nada daquilo faz sentido. Calcula, digita, imprime, três vias, xerox, fax, papel-carbono, assina, carimba, manda o superintendente assinar. O trabalho é mecânico, nunca será divulgado, nunca trará resultados, pro futuro do Brasil.
A vida é vazia, cinzenta. No dia 5 o caixa faz barulho de moedas, e tudo fica em Technicolor, como o filme da Dorothy atrás do Mágico de Oz. Mas, diferente do filme, à medida que o mês se desenrola, as cores vão esmaecendo. Dia 20, tudo já está em preto-e-branco.
E enquanto isso, é importante que as mulheres rebolem, que os casais se formem, que se faça um esforço concentrado em hackear o messenger, que se fuja, que se faça intriga, que se minta, que se fofoque, que faça-se a luz!
A repartição, o escritório, a sala de reunião, a equipe de T.I., tudo isso é o Big Brother nosso de cada dia. Com o mesmo espírito corporativo, a mesma aura de fingimento e a mesma dose (cavalar) de mediocridade.
"Quem se importa de onde vem a bala?
Qualquer dia tu acorda cheio
Quem se importa de onde vem a grana?
Tu tem que ter o bolso cheio"
E a janela rola, e nada faz sentido. Eu não dou valor a nada disso, eu não tenho tesão em nada disso. O clique do mouse e a tentativa vã de fechar a janela do orkut antes de o chefe ver, seguido de um suspiro profundo e enfadado. Nada é maior do que o desejo de adiantar a hora, de fugir pra casa, de dar o pé na bunda do chefe e mostrar o dedo médio em riste para toda a choldra. Mas qual. Quem se importa de onde vem a grana?
O dia lá fora é bonito, meio sol meio nublado, e há muito o que ver, o que fazer. Mas tudo custa dinheiro. E é por ele que eu fico aqui, das 8 às 18. Isso faz algum sentido?
O que você fez na vida, vovó?
Seis da tarde, o cristão vai pra casa. Criar barriga, dormir cedo, brigar com a mulher, não ver os filhos crescerem. Vai pra casa pra que? Pra dormir, e amanhã acordar e continuar dando corda na roda do trabalho e da vida sem sentido.
Porque não faz sentido. Vida pelo trabalho ou trabalho pela vida?
Sem tesão não há solução. E o trabalho já é clinicamente impotente.
"Harmlessly passing your time in the grassland away;
Only dimly aware of a certain unease in the air.
You better watch out,
There may be dogs about
Ive looked over jordan, and I have seen
Things are not what they seem.
What do you get for pretending the dangers not real.
Meek and obedient you follow the leader
Down well trodden corridors into the valley of steel.
What a surprise!
A look of terminal shock in your eyes.
Now things are really what they seem.
No, this is no bad dream.
The lord is my shepherd, I shall not want
He makes me down to lie
Through pastures green he leadeth me the silent waters by.
With bright knives he releaseth my soul.
He maketh me to hang on hooks in high places.
He converteth me to lamb cutlets,
For lo, he hath great power, and great hunger.
When cometh the day we lowly ones,
Through quiet reflection, and great dedication
Master the art of karate,
Lo, we shall rise up,
And then well make the buggers eyes water.
Bleating and babbling I fell on his neck with a scream.
Wave upon wave of demented avengers
March cheerfully out of obscurity into the dream.
Have you heard the news?
The dogs are dead!
You better stay home
And do as youre told.
Get out of the road if you want to grow old."
Pink Floyd, Sheep
por Vevila às 23:26
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8.2.07
QUARTO 25
Ele se despiu e a abraçou lento e crepitante, como uma chama. Ela se sentiu queimada, se sente queimada, é como se todo o mundo ao seu redor se tivesse transformado em sol, em vulcão, em fogueira.
A mão esquerda do homem reluziu. Uma faixa de ouro, estreita, reluziu. Por que estava ali, sob o peso do corpo do homem, sendo feliz, sendo mulher, sendo profundamente reverenciada, se não podia ser dona daquela faixa dourada que reluzia?
Vagabunda. Mal-amada. Filial. Traidora. Baixa. Ridícula. Incompetente. Eram esses os nomes, os títulos, os poderes investidos a essa mulher-amante, que agora estava frouxa de prazer nos braços do homem. Mas ninguém sabe. Ninguém nunca vai saber. É uma paranóia permanente, é um olhar-se no espelho pela manhã com medo da própria sombra.
Ela ama esse homem como se fosse esse o último dia da humanidade, ela se veste apenas para que ele a dispa, ela se maquia apenas para que a saliva dele borre as tintas, ela transpira apenas para que ele enxugue o suor com a própria pele. Isso para ela é religião.
Mas a mulher-dele está esperando, a mulher-dele preparou o almoço, a mulher-dele acordou com medo do raio que caiu no portão de madrugada e ele a abraçou pelas costas, e fizeram amor até o dia irromper e dormirem os dois, um dentro do outro. A mulher-dele é tão linda que ela, mulher-amante, como pode dizer, se sente como um dia nublado. A mulher-amante é um dia nublado e chuvoso: bela, friamente bela, de formas úmidas e cinzentas, protegida, defensiva, e sempre ameaçando explodir em lágrimas amargas, geladas, e erguer as saias de meio mundo com a força de sua ventania. A mulher-amante é, antes de tudo, uma poderosa força criativa, talvez mais forte que o calor do sol que traz dentro do peito.
A mulher-dele ilumina os ambientes, é um dia de sol; a mulher-amante traz consigo uma nuvem de talvez.
Ninguém jamais entenderá. Olhar os traços do homem e ver neles seu passado, seu presente e seu futuro, o futuro do qual ela sente tão ansiosa saudade. Caminhar pelos corredores da casa do homem e ver seus próprios passos, suas próprias roupas espalhadas aqui e acolá, ouvir o som dos seus gemidos agudos, sentir o seu próprio perfume no ar. Mas a mulher-amante desce da cama com as pernas vacilantes e o corpo dissolvido pelo orgasmo interminável, desce da cama que o homem reservou para eles, porque na cama de lençóis azuis de toda noite ela não pode deitar. Desce da cama e começa a caminhar, os passos vacilantes da mulher-amante pisam os passos dela, imitam os traços dela, querem ler os livros dela e penetrar com as agulhas dela. A mulher-dele está pela casa, sua presença é lancinante como uma de suas agulhas.
Seria simples se não fosse tão complexo. A mulher-amante não deseja ser a mulher-dele. Deseja-se a si mesma, como se esse vulto nu, refletido no espelho do motel, ajudasse a revolver sua própria essência, essa essência uterina que o homem, esse ser que ela ama como quem ama a própria ruína, insiste em empurrar para mais e mais fundo, a cada vez que adentra o corpo dela com essa indiferença tão humana.
"Você sabe que eu te adoro", e a ela ouve isso com profunda resignação. Ele jamais dirá que a ama, assim como jamais sairá de dentro do corpo dela ou da casa da mulher-dele, se não for à força de uma revolução. Tem o melhor das duas, porque as duas mulheres são o melhor que podem, por ele.
Nem a mulher-amante. Ela não sai de sob o corpo dele se não se rebelar. Mesmo sabendo que nunca farão contas juntos. Mesmo sabendo que nunca farão planos juntos. Mesmo sabendo que nunca tricotará um sapatinho branco para colocar sobre a mesa dele no dia em que o Beta-HCG der positivo. Mesmo sabendo que, se permanecer nesta posição, chegará aos trinta anos na mais profunda solidão.
Ela se posiciona em subjugação. Ele ajoelha-se na mira do corpo dela, ela abaixa a cabeça, mãos unidas em frente à testa, fecha os olhos e aguarda o disparo. É só isso que lhe resta. Ninguém deve abrir a boca para sentenciar uma mulher-amante. Ela entende esse disparo como uma injeção de vida, e abraça sua condição com lágrimas nos olhos e profundo amor, como quem abraça a própria morte. E para isso, é preciso muita coragem.
"Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar
Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar
Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar"
Palavra de Mulher, Chico Buarque.
por Vevila às 21:09
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