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27.3.07

EM SUMA



Enquanto fervia a água - porque ela gostava de fazer chá à moda antiga - sentindo o piso frio da cozinha na sola dos pés descalços, notou que ele se virou e foi em direção ao quarto, onde ela deixara os sapatos. Fingiu não ter notado e, com o bule nas mãos, foi pé ante pé esconder-se atrás do batente da porta. Sorriso travesso, de quem ia descobrir um segredo. Viu aquela cena, o homem com os olhos cerrados e o nariz enterrado nas dobras das suas meias, aspirando-as como quem inala uma droga muito poderosa, ou mesmo um perfume inebriante. Um tremor percorreu seu corpo. Psicose, tesão, curiosidade. A mulher abraçada ao bule, a chama acesa no fogão, gastando o gás sem motivo, a luz do sol entrando pela janela da cozinha. Sentiu um comichão no corpo todo, excitou-se com a leveza pueril do homem guardando suas meias no bolso. Rapidamente se voltou para o fogão. Talvez ele preferisse café.

por Vevila às 14:36


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22.3.07

ONE MAN'S ARMY



O mundo é feio. Muito feio. Mas teria Deus, em sua infinita sabedoria, feito o mundo feio assim, de propósito?
Não.
O mundo que Deus criou (assim mesmo, em língua de criança do Jardim II), é lindo. É cheio de cores e formas, e cheiros.

Mas a espécie mais linda que Deus criou, é um nojo.
Deus, por que essa conversa de imagem e semelhança? Por que isso, se o ser humano, esse Homo ludens que tu criaste, é o ser mais baixo, vil, degradante que já andou por essa terra tão linda?

Há anos insisto que as pessoas são rasas. Elas são.
Você entra no recinto e as pessoas te chamam "Madalena!", e empunham pedras com os olhos. Mas claro, elas não te apedrejam assim, à vera. Elas falam com você, "E aí, vai fazer concurso?", "Ah, segue essa carreira, você tem talento!", "É bom saber que há pessoas assim", e súbito, quando você está de costas, sussurram nas coxias, "É a Vevila, ela é a mesma.", "É, ela não muda, não vai mudar nunca", em tom de nojo, de julgamento, de sentença. Madalena, Madalena, e o melhor! essas pessoas crêem em Deus! Elas rezam pra passar no concurso da Fundação. Elas fazem elocubrações maravilhosas pra provar cientificamente que é possível que Deus exista, pra que não fique feio ter fé sob aquela carapaça de pseudo-intelectual.
E a Vevila? A Vevila que se foda, nunca vai chegar a conhecer sua sentença, nem os erros que eventualmente cometeu; nunca vai corrigi-los, porque o juri é absolutamente soberano e guarda a sentença para si. Isso sim é veracidade, é coerência, é sabedoria!

Continua fazendo muita diferença na minha cabeça tentar entender o que faz o homem esse ser tão vil. O que leva os espécimes humanos a fuçar arquivos, fazer perguntas, acionar contatos, com a única intenção de ferrar o outro, de desautorizar o outro, de desmentir o que o outro diz. E nesses momentos, desejava que, "Por favor, Deus, não permita nunca que os porcos voem!"
A mediocridade me incomoda tanto quanto o jornal de cada dia. A mediocridade me dá nos nervos, e eu tenho vontade de voar nos pescoços alheios quando ela aparece.

E a Vevila? A Vevila não muda nunca. É aquela que toma as dores, que não trabalha em qualquer birosca de quinta por dinheiro, que não esconde o que sente, que se importa com os outros, que assumiu os crespos e os pecados.

E a Vevila tem amigos. Os amigos dela cabem numa bicicleta, mas se for preciso, ela vira o mundo ao avesso pra que esse mundo podre ofereça apenas o que há de melhor para eles.

A Vevila dorme tranquila porque o mundo é dela, ela é de verdade, ela é profunda; ela acenou boa noite e o mundo fingiu que não notou sua presença, pra só depois vir oferecer-lhe sorrisos e abrir a boca em maldições (mas claro, só depois que ela virou as costas). A Vevila dorme tranquila porque cada uma dessas maldições a faz acreditar que é muito menos perigoso pra sua alma agir com coerência do que vestir uma máscara para tentar enganar a quem seu coração não quer bem. Não há lucro em destilar palavras de admiração quando ela não é verdadeira. Não há lucro em morrer de gastrite e insônia passando as noites em claro digerindo coisas que não alimentam.Não se ganha nada com isso.

É isso! Mais do que qualquer coisa, a Vevila é coerente. Coerente com suas crenças, coerente com sua ética, coerente com seus sentimentos. Isso é ser outsider, isso é lutar todo dia pra afastar as pessoas de si, isso é pagar a solidão do futuro em suaves prestações, mas vale a pena, porque é algo que ninguém será capaz de tomar dela.
Isso é filosofia estóica. E é rara e solitária, porque é muito menos doloroso tirar a responsabilidade de si e jogá-la nos outros - e por que a gente vive nesse mundo de fibra ótica se não é pra evitar a dor?
Mas eu não evito. Sabe por que? Porque eu sou coerente com a minha condição - humana, mas humana do jeito que aquele tal de Deus queria.
Por isso não mudo nunca. Entendeu?
Porque eu sou eu, você é você e jacaré, meu caro, jacaré é um bicho muito mais feliz que o homem.

"Big man, pig man, ha ha charade you are.
You well heeled big wheel, ha ha charade you are.
And when your hand is on your heart,
You're nearly a good laugh,Almost a joker,
With your head down in the pig bin,
Saying "Keep on digging."
Pig stain on your fat chin.
What do you hope to find.
When you're down in the pig mine.
You're nearly a laugh,
You're nearly a laugh
But you're really a cry."


por Vevila às 18:38


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4.3.07

FRAGMENTOS



A cidade não era litorânea, mas uma brisa marinha invadiu o quarto espelhado, dissipando o calor daquele dia de sol. Muitos trovões ribombavam na mente dela, mas ainda assim, ela dormiu. Dormiram juntos em profunda conexão, ligados um ao outro pelo assoalho pélvico, como se fosse essa a postura original. Aquele homem tornava a existência dela mais florida, mais feminina, mais praieira. Assim postados, era como se uma brisa marinha deslizasse levíssima, do horizonte até o circular da cama, e tocasse aqueles corpos com doce reverência. A figura dos que amam é sublime. O amor é bilateral, como a postura sonolenta dos corpos que repousam unidos, fragmentos do sem-tempo, interpretação poética, retiro espiritual.

por Vevila às 20:19


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