BULLING
Lavou a mão duas vezes. Passou álcool. Lysoform. Calçou luvas, descalçou-as. Queria transpirar como transpiram os bandidos nos filmes, mas não conseguia fazer sair da própria pele nem uma gota de suor. Pele seca, 72 batimentos cardíacos por minuto, pressão arterial 10 por 6. Mas as mãos estavam frias, gélidas, as pontas dos dedos meio roxas. Achou melhor calçar as luvas. Luvas de couro.
Aquela espada Hatori Hanzo não seria tão maravilhosa quanto essa Uzi, agora. E roupas pretas seriam mais discretas do que amarelas, apesar de que seria particularmente belo ver miolos deslizando lentamente sobre a superfície lisa do vinil. Mas puxa, 600 tiros por minuto, será que isso vai ser justo? Não, não vai. Vai morrer todo mundo junto, muito rápido. Talvez a idéia de torturar todo mundo por alguns segundos não seja de todo ruim. Tudo bem. Decidiu usar a Glock. Usaria a Glock, mas a Uzi, menina dos olhos, iria escondida dentro da capa. Pra qualquer eventualidade.
Caminhava em direção à sala. Não era nada de se planejar muito. Também não era mero ódio, era uma coisa de desprezo, era como se olhasse as pessoas, todas elas, e nutrisse por elas um desprezo tão visceral que doía, dava vontade de presenteá-las com uma rápida passagem pro outro mundo. Rápida, disse, mas não indolor. A dor era default.
Passando pelo corredor, pensava que também não queria ser como Jack The Ripper - olha como soa sinistro esse título - que nunca, jamais foi descoberto, ele foi o assassino perfeito, matou, estripou, fez justiça contra aquelas putas e ainda escreveu cartas com o sangue delas. Abriu a porta pensando que, mesmo não pretendendo escrever carta alguma, talvez depois de tudo, colocariam um título, "The Bullied" ou coisa que o valha, se não for muito neologismo, depois do seu nome, pra ajudar a indentificar o caso.
Primeiro foi aquele homem, corrupto, que lhe causava raiva e náuseas intensas. Depois aquele outro, com marra de bandido, pobrezinho, não era de nada. Caiu com um furo na nuca. Os outros berravam, mas de ouvidos surdos, a mão que puxava o gatilho sequer ouvia os tiros. Glock querida, quão lindo é o seu coice, quão suave é o seu peso. Analisando bem, sabe, foi bem pensado escolher a Glock. A Uzi não deixaria que reconhecessem os falecidos depois, o que seria uma grande pena. Depois foi a mocinha loira. Ela não merecia tal presente, talvez para ela o melhor fosse assistir a tudo, entrar em estado de choque, ter uma profundíssima depressão, síndrome do pânico, afogar-se em antidepressivos e, depois de um mês, morrer de anorexia nervosa, simplesmente por nunca mais conseguir comer carne (e em consequencia, qualquer outra coisa). Mas paciência. Seria muitíssima crueldade, e afinal de contas, somos todos humanos. Ainda alguns tiros, não erraria a mira jamais, porque era um desperdício. Acertou mais dois homens e uma mulher que abriu a porta desavisadamente. Quem mandou se meter na vida alheia? Vai trabalhar, vagabunda.
Não é possível dizer se era belo ou dantesco. O fato é que estava lá, toda a cena, todo o circo armado. Pensou em atear fogo, mas qual seria a graça de não poder, toda a cidade, todo o país, quiçá o mundo, ter acesso a esse momento poético em que toda uma choldra se unia numa só carne? E falando em carne, fogo não iria bem, especialmente por causa do cheiro de churrasco que empestearia todo o prédio. E não era ironia. Jamais faria ironia com coisa tão grave. Eram apenas fatos. E contra fatos, não há argumentos. Pensou nas manchetes do dia seguinte, letras vermelhas escorrendo na página, ai que coisa ultrapassada, esperar pela manhã seguinte sendo que já existe internet, e ainda por cima publicar a coisa toda com letras vermelhas escorrendo na página. "Tarde de terror na Capital Federal - Massacre em escritório deixa 6 mortos". Ruim. Péssimo. Como o mundo precisa de criatividade. Passou um dedo enluvado na divisória onde estava grudado um pedaço de um órgão vital qualquer, tinha jeito de ser um pâncreas, é, era um pâncreas, e devia ser do homem que entrou por último, pela posição do corpo no chão. Tudo estava vermelho, daqui a algumas horas estaria algo preto, marrom, não se sabe bem como é que se comporta o sangue nesses casos, mas se sabe que estava tudo tão poético, naquela disposição, que nem os melhores expressionistas saberiam reproduzir algo parecido. E, de repente, deu vontade de lavar as mãos. De novo.
Pisou numa poça. O pé grudou. Pensou em chorar, mas pra que, se aquilo era o plano, o desejo, o mais intenso e profundo orgasmo que seu cérebro já havia experimentado? Pensou em rir, mas rir de que? A menina loira (loira ou ruiva, agora já não sabia) tinha espasmos na pálpebra. Não era muito de se rir.
Deu de ombros. Sacudiu os pés, limpou no capacho. Ia dar um trabalho terrível limpar essas botas.

por Vevila às 17:56






