29.10.07
DO ALTO DA TORRE
Conta a estória que, quando o tempo fechou lá pros lados da vida, a moça fechou também suas pálpebras e deixou correrem as lágrimas mais amargas. Então ele veio, beijou-lhe os olhos com devotado carinho, a carícia mais que essencial, e sorveu-lhe as lágrimas, como se elas fossem doces. "Ah...", suspirou ela entre lágrimas. E depois disso, dizem, o céu se abriu.
O amor é a cura e o equilíbrio. Dizem que os homens, no fim, fazem tudo por ele. Amor, a moça crê, é saúde. É a saúde que lhe falta quando a vida toda parece ir contra si mesma, quando tudo parece miséria, quando parece mesmo que não há esperança. O amor a abraça sonoro e quente, e tudo se torna tão amplo e pleno e possível e colorido que não há mais tempestade.
A voz dele cantou uma canção de ninar. Ao invés de dormir, a moça despertou de um sono que lhe prendia no alto de uma torre, parece, há séculos. Ele a acariciou, e foi tão doce que doeu. Foi embalada por essa sensação de impossível, de tanta força, tanta resistência, tanta petulância, tanta fé, que caiu num sono leve, certa de que, amanhã, o sol voltaria.
"Quando o tempo me cobrir os céus
Com a anágua suja da tua espera
E os teus lábios forem duas margens
Um gritando calmaria, outro clamando tempestade
Eu voltarei, de corpo e barco, voltarei
E por ti seguirei minha viagem
Navegarei entre teus braços e segredos
Eu serei teu búzio, tu serás o meu degredo."
por Vevila às 16:54
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19.10.07
INTENSIDADE XVIII
Você não teme que tenha sido a última vez?
O último cruzar de olhares, o último "até logo", o último abraço?
Você não teme que tenha sido a última vez?
E se soubesse que seria a última, o que faria?
Com que intensidade diria "eu te amo", com que intensidade beijaria, abraçaria, afagaria, apertaria contra si esse bem tão precioso, juntaria todos os baldes da casa para recolher a água desta última chuva, choraria lágrimas menos amargas, admitiria a saudade e a falta tão sôfregas que sentiria?
Se soubesse que seia a última, o que faria?
A gente sempre vive na expectativa de um futuro que não se conhece. A rotina de sair de casa pela manhã, tomar o ônibus, trabalhar, almoçar no shopping, ver as mesmas caras encardidas, trabalhar novamente, tomar o ônibus e voltar para casa... nem mesmo esta rotina é capaz de sobreviver à sentença de um destino nem sempre complacente. Um dia você não acorda mais na cama, ou é atropelado pelo ônibus, ou sofre um enfarto no escritório, ou se infecta de salmonella pela maionese do almoço, ou leva um tiro de uma daquelas caras encardidas, ou sofre um acidente de ônibus, ou morre num assalto à noite, na esquina de casa.
Mas... e se a gente soubesse que seria a última vez?
É sempre a última.
E, geralmente, a gente tem algum tempo pra se arrepender. Nem que seja um segundo. Ou quem sabe a vida inteira.
(O que eu não quero, jamais, é sentir esfacelar-se minha esperança, quando ela divide espaço com uma sensação de pertencimento, com esta dívida de amor que tenho para comigo mesma, com esta ligação sobrenatural que tenho com o objeto do meu amor. É como se ele nunca tivesse estado longe, ainda que esteja tão distante. Por isso me dói tanto lembrar da última vez, em que eu me esforçava por sentir-me forte o suficiente para esperar seu retorno breve.)
E quando a gente sabe que é a última?
A gente faz o que deve?
Não sei.
O ser humano é o animal mais incoerente de que eu já tive notícia.
"-Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.(...)
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
P.S.: Sim, eu odeio o Pequeno Príncipe. Mas essa merda combina bem com o dia de hoje. Paciência.
P.S. 2: Meus posts estão se tornando variações em torno do mesmo tema. Por favor, alguém me ajude a escrever sobre a alta do dólar!
P.S. 3: I'ts raining men, hallelluja.
por Vevila às 10:49
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5.10.07
SAUDADE II
Saudade.[Do lat. solitate, 'soledade, solidão', atr. do arc. soydade, suydade, com influência de saúde.] S.f.
1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.(...)
2. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido. (...)
É estar encantado. É estar envolvido por uma bruma densa que turva a visão e escurece o dia.
Ah, sim, esse amor é minha saúde. É o que me dá forças todo dia, pra riscar os números no calendário e carregar o peso da saudade que, em 9 meses, vai nascer.
Mas ainda demora, por isso é tão longe, tão doloroso, tão difícil segurar o choro. "É assim como uma fisgada no membro que já perdi."
Sr Aurélio Buarque de Hollanda, o senhor estava certo em quase tudo. Só errou em alguns detalhes. De suave, a saudade não tem nada. Deveria ter. Mas a saudade dói, dói muito, dói fundo, uma dor pesada, uma angústia quase intolerável, uma coisa que dói no corpo mesmo, que aperta o peito, que encurta o fôlego, que desespera e que salta aos olhos.
Isso é saudade de verdade. É um sentir-se mutilado por dentro, desejando um reimplante urgente, agora, pra ontem. "A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu."
Mas saudade é bom, tem que ser bom. É o sinal de um coração vivo e desejoso de sentir de novo o alívio da presença. Essa presença que cai no coração como a água numa terra ressequida, assim como a terra de Brasília depois de 4 meses. 4 meses. A natureza é mesmo sábia em torturar-se junto comigo. Mas tem que ser bom. A melhor parte da saudade é matá-la, e assim que a saudade estiver se tornando já parte de mim, escudo pro meu coração, ela será morta. É nisso que se ampara o meu coração. Enquanto isso, muitos travesseiros serão apertados, muitos lenços serão molhados, muitas músicas serão compostas, muita arte será produzida. Porque a saudade, mais do que tudo, é a mais profunda inspiração.
"I believe in memories
They look so, so pretty when I sleep
Hey now, and when, and when I wake up,
You look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time,
And there is no, no song I could sing
And there is no combination of words I could say
But I will still tell you one thing,
We're better together..."
Jack Johnson, Better Together
Volta logo, viu?
por Vevila às 22:30
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2.10.07
OUTUBRO VERMELHO
Money, get away
Get a good job
with more pay and you're O. K.
Money it's a gas
Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar,
four star daydream
Think I'll buy
me a football team
Um sofá de R$ 6000. Era R$ 12000, mas olha, a loja tá em liquidação. Troca de mostruário.
E quem vai querer um sofá de R$ 6000 quando pode ter um de R$ 400 o jogo? E melhor que isso, é um daqueles sofás de pôr capinha, daquelas cheias de babados. Um luxo, pode ter certeza.
Por causa do sofá de R$ 6000 a gente perde o sono. Morre de fome, se arrepende de tanta coisa - vão-se os sapatos, ficam as almofadas. Morre de saudade. Faz tempestade em copo d'água. Acorda cheio de olheiras, por causa das irrisórias horas de sono, passa o dia ouvindo metal no último volume, engorda e se sente a mulher mais feia do mundo. A mais rejeitada, a mais pobre, a mais triste de todas as mulheres.
Aí você pergunta: "Mas quem é maluco o suficiente pra passar por tudo isso por causa de um sofá? Um reles sofá??"
Eu sou, mas não é simplesmente um sofá. É o sofá e tudo o que ele implica. É o sofá, a mesa de centro, a coifa, o fogão de mesa, a cama, o closet, a cuba de vidro temperado, a casa, o vestido, o sim, o amor. Eu e ele. E o sofá de R$ 6000.
Por hora, as Barbies do meu calendário posam lindas de vermelho, me lembrando o tempo em que tudo era muito mais fácil, que eu queria ser como elas e só amava o Ken. E que as únicas cozinhas planejadas com que eu sonhava eram aquelas da Casa dos Sonhos. Crescer e amar - as coisas que eu mais queria quando brincava de Barbie - hoje assaltam meu sono à noite e me cobrem de lágrimas e de medo. Ah, se as Barbies desse mês soubessem o que os outubros da minha vida me trouxeram...
A moça da loja talvez não tenha entendido por que eu caí no choro quando vi o sofá. Mas eu devia ter ficado. Talvez ela me desse um desconto.
**Post nonsense, confuso e codificado, desses que a gente escreve depois de uma noite mal dormida e um dia ouvindo metal. Aliás, pra quem está assim, metal é canção de ninar. Haja ansiedade. Deve ser a chuva.
por Vevila às 18:13
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