FOR EVER AFTER
Hoje, neste belo dia nublado na cidade, eu saí de casa com uma sensação engraçada.
Sabe o que é? Eu sou feliz. Apesar de tudo e por causa de tudo.
Já fiz muita burrada, já me magoei e magoei os outros, mas sabe de uma coisa? Eu consegui ser feliz assim mesmo. Porque concluí que a vida não pode e nem nunca poderá ser uma harmonia constante. E o que de mais sábio um ser humano faz enquanto está nela é ser aquilo para que foi feito: feliz.
Eu não me permiti ser infeliz, e deve ser por isso que as coisas boas batem todas as manhãs na minha porta. Quando eu deixei de me culpar, de me exigir, de me forçar a representar um papel que não foi escrito para mim, eu acordei feliz da vida e então, nesta mesma manhã, a vida me sorriu e eu passei a ser feliz. Apesar de tudo e por causa de tudo.
Aprendi que forçar o controle das coisas é loucura. Se você segurar o riso, você tem uma crise de riso. Se você segurar o peido, você peida. E faz barulho, o que é pior. Se você passar a noite em claro formulando estratégias para vencer a guerra, o inimigo avança sobre o seu acampamento na hora em que você desabar de cansaço. Se você ruminar o seu passado, perde a fome de presente. O passado a gente enterra ou encerra num baú. E se permite ser feliz, porque aí sim a felicidade chega, porque ela é a mais educada das criaturas. Pede licença, e se você não der, ela vira as costas.
Certa vez um monge budista foi procurado por um jovem furioso. A vida dele estava de pernas para o ar, e o único sentimento que ele conseguia nutrir era ódio profundo. O monge perguntou a ele:
- Quem é mais forte? O fogo ou a água?
- O fogo - respondeu o jovem furioso.
Então o monge pegou o jovem pela mão e sentou-se próximo a um rio de muitas corredeiras. E ficaram ambos em silêncio observando a água. Caiu a noite, e o monge acendeu uma fogueira. O fogo cresceu, alimentou-se e suas labaredas dobraram de tamanho. A fogueira tornou-se um monstro. Consumiu o capim, a vegetação rasteira e os pequenos animais que ousaram se aproximar. Queimou por uma hora, até consumir a si mesmo, rápida e violentamente. O monge e o jovem dormiram, e quando o dia amanheceu, acordaram tendo à sua frente cinzas... e o rio, que descia caudaloso, meandrante, cantando sem parar.
- E agora, quem é o mais sábio? O fogo ou a água?
A água é mais forte e mais sábia. Porque com o tempo, ela transforma rochas em areia. Porque independente do tamanho do obstáculo, ela apenas o contorna, fazendo seu corpo tomar a forma necessária para avançar e avançar sempre. Ela passa por cima do obstáculo, por baixo do obstáculo, pelas minúsculas fendas do obstáculo, e avança, deixando-o para trás. Porque labaredas quando se juntam, crescem e se consomem rapidamente, mas gotas quando se juntam, crescem e formam águas ainda maiores. Porque a água nunca morre, mesmo quando se deixa morrer, evaporando, sendo absorvida, sendo bebida.
Eu aprendi com a água. E não nasci pra ser outra coisa, senão feliz. Sempre.
Eu sobrevivi. E você?
por Vevila às 21:51







